Você já sentiu que o mundo, tal como o conhecemos, está desaparecendo silenciosamente? Em Gosma Rosa, a escritora uruguaia Fernanda Trías não apenas descreve esse sentimento, mas o transforma em uma experiência sensorial visceral.
Vencedora do prestigioso Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz, a obra se consolidou como um dos pilares da literatura latino-americana contemporânea ao explorar os limites da sobrevivência humana.
Embora muitos classifiquem o livro como uma distopia climática, a narrativa vai além dos rótulos. Trías entrega uma prosa poética e perturbadora sobre o que resta de nós quando o ambiente se torna hostil.
A história captura a essência do antropoceno e reflete as ansiedades de uma geração que observa o colapso ecológico pela janela.
Um mundo sob o vento vermelho
A trama nos transporta para uma cidade portuária decadente, onde a natureza deixou de ser um cenário para se tornar uma ameaça letal.
Uma alga tóxica invade a costa e espalha um vento vermelho. Um fenômeno que obriga os moradores ao isolamento total. Quem se atreve a enfrentar o ar contaminado sofre consequências terríveis, como a descamação da pele e doenças misteriosas.
Nesse cenário de escassez, a população depende da Gosma Rosa para não morrer de fome. Esse subproduto industrial, uma pasta de carne processada e padronizada, serve como o único alimento disponível para as massas.
O nome do livro carrega um simbolismo forte: representa a degradação do que consumimos e a artificialidade da vida em meio ao desastre.
Acompanhamos uma personagem narradora em sua rotina fragmentada. Ela divide seus dias entre o hospital, onde visita o ex-marido afetado pela peste, a casa de sua mãe a relação desgastada entre elas e o seu apartamento, onde ela cuida de um menino que exige cuidados constantes.
Através desse cotidiano cinzento, Fernanda Trías constrói uma metáfora poderosa sobre a crise climática. Ela mostra que, mesmo quando o mundo exterior desmorona, as obrigações do cuidado e os fantasmas do passado continuam a nos assombrar.
A fome insaciável de Mauro
No centro da narrativa, encontramos Mauro, um menino que fica sob os cuidados da protagonista. O garoto parece sofrer da Síndrome de Prader-Willi (digo aqui que parece, pois não há uma confirmação direta no livro), uma condição genética que elimina a sensação de saciedade.
Através dessa figura inquietante, Fernanda Trías constrói uma das críticas mais contundentes de Gosma Rosa. Mauro não apenas sente fome, ele personifica um desejo de consumo absoluto que ignora limites e consequências.
Essa dinâmica de cuidado é exaustiva e serve como um espelho para a nossa própria relação com o planeta. Enquanto a narradora tenta desesperadamente saciar o vazio do menino, o leitor percebe a futilidade desse esforço em um mundo onde os recursos acabaram.
Mauro devora tudo o que vê pela frente, simbolizando a voracidade do Antropoceno e a forma como a humanidade consome o meio ambiente até o esgotamento total.
Além disso, a relação entre os dois destaca o fardo do cuidado em tempos de crise. Não podemos dizer que Mauro é abandonado pelos pais aos cuidados da protagonista. Mas o fardo de sua criação e cuidado são delegados a ela.
A protagonista se vê presa a uma criança que nunca estará satisfeita, em uma cidade que já não tem nada a oferecer.
Essa metáfora poderosa transforma o drama pessoal em uma crítica social afiada, questionando se ainda somos capazes de nutrir algo além do nosso próprio egoísmo em meio ao colapso.

O colapso enlatado: a Carnemais e o capitalismo tardio
A onipresença da Carnemais em Gosma Rosa funciona como uma crítica ácida ao sistema de produção em massa. Ao transformar restos de carne em uma pasta padronizada e insípida, a empresa estatal elimina a identidade do alimento e a conexão do ser humano com a natureza.
Essa solução industrial reflete o estágio mais sombrio do capitalismo: a transformação da necessidade básica de sobrevivência em um produto ultraprocessado e desumanizado.
Fernanda Trías utiliza a gosma rosa para ilustrar como o mercado se adapta até mesmo à catástrofe. Em vez de buscar a recuperação do ecossistema, o sistema cria substitutos artificiais que mantêm a população apenas funcional o suficiente para continuar existindo.
Assim, o livro denuncia uma realidade atual, onde os alimentos ultraprocessados dominam as prateleiras, priorizando o lucro e a durabilidade em detrimento da saúde e da dignidade humana.
A profecia de Fernanda Trías
É impossível ler a obra sem traçar paralelos com a crise sanitária global recente que a COVID-19 nos fez passar. Embora a autora tenha escrito o livro antes de 2020, ela parece capturar com precisão cirúrgica a atmosfera de incerteza e o isolamento social.
A narrativa descreve o medo do ar, a desconfiança em relação ao outro e a rotina sufocante de quem vive entre quatro paredes, aguardando um sinal de melhora que nunca chega.
A autora explora como o isolamento altera a percepção do tempo e das relações humanas. Na trama, as máscaras e a desinfecção constante não são apenas medidas de segurança; elas se tornam barreiras emocionais que afastam os personagens da própria humanidade.
Essa normalização do horror é o que torna o livro tão perturbador para o leitor contemporâneo, pois reconhecemos nele a nossa própria fragilidade diante do invisível.
Portanto, o livro funciona como uma cápsula do tempo sobre a solidão moderna. Trías não foca nos grandes eventos políticos da catástrofe, mas sim no impacto psicológico de ver o mundo exterior se tornar um território proibido.
Ela nos lembra que, mesmo protegidos por muros e protocolos, a verdadeira invasão acontece dentro da mente, onde o silêncio da quarentena amplifica nossos medos mais profundos.

O “Eco-Horror” e a Literatura Latino-Americana
A obra de Fernanda Trías não surge no vácuo. Ela pertence a um movimento vibrante da ficção contemporânea. Atualmente, autoras latino-americanas dominam o cenário com histórias que misturam o cotidiano ao insólito.
Em Gosma Rosa, Trías utiliza elementos do eco-horror, no qual a natureza deixa de ser um fundo bucólico e assume um papel antagônico, cobrando o preço de séculos de exploração humana.
Ao lado de nomes como Giovanna Rivero, Dolores Reyes e Samanta Schweblin, a autora uruguaia redefine o gênero especulativo. Essas escritoras utilizam o terror e o desconforto para denunciar crises sociais, políticas e ambientais latentes na América Latina.
O vento vermelho e a alga tóxica funcionam como extensões de medos reais: a contaminação dos rios, o agrotóxico e o descaso com as políticas públicas de saúde.
Dessa forma, o livro se afasta das distopias futuristas tecnológicas para focar em uma decadência orgânica e visceral. Trías prova que o horror mais profundo não vem de monstros externos, mas da percepção de que o nosso habitat se tornou nosso próprio carrasco.
Essa abordagem torna a leitura essencial para quem deseja compreender as novas rotas da literatura produzida em nosso continente.
Vale a pena ler Gosma Rosa?
Se você busca uma leitura que provoque reflexão e desconforto na medida certa, a resposta é um sim absoluto.
A prosa de Fernanda Trías é hipnótica. Ela equilibra a crueza das descrições, como a textura da pasta rosa ou o cheiro do hospital, com uma sensibilidade poética bem diferente do que lemos por aí.
O livro não oferece respostas fáceis ou finais redentores, o que o torna ainda mais marcante. A obra atende tanto ao leitor que aprecia uma boa ficção científica especulativa quanto àqueles que preferem dramas psicológicos densos.
O destaque principal reside na construção dos personagens. Você não encontrará heróis salvando o mundo, mas seres humanos falhos tentando preservar pequenos fragmentos de dignidade enquanto o exterior apodrece.
Portanto, Gosma Rosa é um exame sobre a resiliência e a solidão. Se você aprecia livros que permanecem na mente dias após o fechamento da última página, esta deve ser sua próxima escolha. Prepare o fôlego, pois o vento vermelho de Trías é impossível de ignorar e o ex-marido dela é difícil de não odiar.
O desfecho
A impressão que tive é de que Gosma Rosa nos convida a encarar as ruínas do nosso presente com coragem.
Fernanda Trías utiliza o colapso ecológico como um espelho para as nossas próprias falhas afetivas, entregando uma obra que é, ao mesmo tempo, um aviso e um consolo.
Definitivamente, foi um livro que deixou um milhão de perguntas e muitos momentos de reflexão. Pois a busca incessante da personagem por um refúgio em suas memórias, acabamos percebendo junto com ela que a contaminação da natureza, dos alimentos e dos afetos já estavam lá.
Gosma Rosa, foi a nossa leitura de março no Traças-Latinas e nossa próxima leitura será Terra Fresca de sua tumba, da escritora boliviana Giovanna Rivero.
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