Kentukis: o lado sombrio da tecnologia

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A câmera estava instalada nos olhos do bicho de pelúcia, e às vezes ele girava sobre as três rodas escondidas sob sua base, avançava ou retrocedia. Alguém o manipulava de algum outro lugar, elas não sabia quem era.

Nesta edição do blog trago a resenha de uma leitura que muito me impactou. O livro Kentukis, da escritora argentina Samanta Schweblin, mergulha nas contradições do nosso tempo.

Uma história que nos apresenta um dispositivo curioso: os kentukis. Bichinhos de pelúcia com câmeras internas que permitem estranhos assistirem à vida de outras pessoas, em tempo real.

O livro aborda a fragilidade da privacidade e a sedução do voyeurismo digital, criando um retrato inquietante do presente. Se você se interessa por tecnologia, comportamento e literatura com toques de distopia, essa leitura vai te fazer repensar o modo como se conecta com o mundo.

Mas o que são os Kentukis?

Se você é da geração dos que viveram o lançamento dos Gremlins, já te digo que os Kentukis não chegam aos pés desses bichinhos fofinhos que não podiam ser alimentados após a meia noite.

O universo apresentado em Kentukis, de Samanta Schweblin, gira em torno de um dispositivo tecnológico inusitado que muda drasticamente a forma como as pessoas se conectam.

Pequenos robôs de pelúcia, com olhos que funcionam como câmeras, se espalham pelo mundo como uma febre. A proposta é aparentemente inofensiva, mas o que está em jogo é muito mais complexo.

A autora nos leva a refletir sobre a linha tênue entre vigilância e entretenimento, enquanto acompanhamos diversas histórias impactadas por esse novo tipo de interação. Ao longo do livro, fica claro que a tecnologia, quando não questionada, pode assumir funções bem sombrias.

Os Kentukis e o novo voyeurismo 

Logo de cara, o leitor se depara com um dispositivo intrigante: um boneco fofo, recheado de espuma e equipado com um sistema de câmera e conexão remota.

Esse bichinho permite que alguém, do outro lado do mundo, veja tudo o que acontece dentro da casa de quem o possui. Ele não fala, não grava, mas observa.

O mais curioso é que a pessoa observada também opta por essa interação, sem saber nada sobre quem está do outro lado. É uma troca silenciosa e cheia de possibilidades, que desafia a noção de privacidade e confiança.

A dinâmica entre quem observa e quem é observado

A relação que se estabelece entre os usuários do dispositivo é marcada por curiosidade, controle e afeto. De um lado, temos quem quer ser visto. Do outro, quem busca acompanhar uma vida alheia.

Essa troca cria laços estranhos, no qual o observador se envolve emocionalmente com a rotina do outro, mesmo sem contato direto. O livro mostra como o simples ato de ver pode provocar uma conexão profunda.

Mas também abrir espaço para manipulações, julgamentos e atitudes invasivas. A experiência, que começa como um jogo, rapidamente ganha contornos mais sérios e imprevisíveis.

Reflexos do consumismo contemporâneo

A obsessão por Kentukis no romance de Samanta Schweblin me fez pensar na atual febre pelos Labubus. Pois ambas refletem o consumismo desenfreado que caracteriza a nossa sociedade contemporânea.

Se você ainda não os conhece, os Labubus são bonecos colecionáveis que se tornaram símbolos de status e desejo. Criados pelo artista Kasing Lung e comercializados pela Pop Mart, eles ganharam notoriedade por sua estética peculiar e por serem vendidos em caixas surpresa, o que alimenta a ansiedade e o impulso pela compra.

Cena de Gremilins e a relação com o capitalismo desenfreado que vemos em Kentukis.

[…] Comprar um dispositivo era obter algo tangível, algo que ocupava um lugar real na casa, era o mais parecido no mercado com ter um robô doméstico; comprar um código de conexão, por outro lado, era gastar uma soma grande de dinheiro em troca apenas de dezoito dígitos virtuais, além do que as pessoas adoram tirar coisas novas de caixas sofisticadas.

A demanda pelos labubus e lafufus (a versão pirateada) é tão intensa que já houve relatos de tumultos e brigas em lojas físicas, levando à suspensão temporária das vendas em alguns lugares do mundo.

Assim como os personagens de Schweblin se veem envolvidos em relações complexas mediadas por dispositivos, os consumidores de Labubus muitas vezes buscam preencher vazios emocionais através da aquisição desses objetos.

É, portanto aqui, que a vida e a arte se encontram: para evidenciar como o desejo por conexão e pertencimento pode ser explorado comercialmente, transformando necessidades humanas em oportunidades de consumo.

Ou seja, enquanto os Labubus revelam o apelo visual e o desejo de exclusividade no mercado de consumo, os Kentukis funcionam como uma metáfora mais profunda para entender como certas tecnologias e produtos, como esses bonequinhos surpresa ou os bebês reborn — se conectam às nossas carências afetivas.

Ambos os fenômenos ajudam a refletir sobre como o consumo se entrelaça com nossas emoções e experiências pessoais, mas o romance de Schweblin leva essa discussão a um patamar mais inquietante, ao mostrar o que acontece quando a intimidade vira espetáculo.

Conheça alguns personagens

As histórias de Alina, Emilia e Marvin exemplificam como o mesmo artefato pode ser interpretado e utilizado de maneiras distintas, refletindo as particularidades de cada ambiente.

  • Alina: é uma jovem mexicana que acompanha seu namorado artista em uma residência na Europa. Sentindo-se deslocada e entediada, Alina adquire um kentuki e desenvolve uma relação obsessiva com o dispositivo, que a faz questionar sua própria identidade e os limites entre o real e o virtual.
  • Emilia: uma aposentada peruana que, ao controlar um kentuki, encontra uma forma de preencher o vazio deixado pela distância do filho. Através do dispositivo, ela estabelece uma conexão emocional com uma jovem alemã, criando uma relação que mistura afeto e vigilância.
  • Marvin: um garoto de Antígua que, após a perda da mãe e a negligência do pai, encontra nos kentukis uma forma de escapar de sua realidade. Controlando um dispositivo, Marvin vive experiências que contrastam com sua vida cotidiana, revelando o potencial dos kentukis como ferramentas de evasão e fantasia.

Essas narrativas demonstram que, embora os kentukis sejam tecnologicamente idênticos, suas implicações variam conforme o contexto cultural e emocional de seus usuários.

A obra de Schweblin destaca como a tecnologia, ao se infiltrar na intimidade das pessoas, pode tanto conectar quanto isolar, dependendo das circunstâncias individuais.

As relações humanas mediadas pela tecnologia em Kentukis

Um dos grandes trunfos de Samanta Schweblin é a maneira como ela retrata as novas formas de relação afetiva surgidas com o uso dessa tecnologia. O livro coloca em xeque a autenticidade das conexões digitais e questiona se laços virtuais podem realmente substituir a presença física.

Por meio das histórias paralelas, fica evidente que a carência emocional das pessoas é o que alimenta o sucesso daqueles bichinhos de pelúcia.

A tecnologia se torna, assim, um canal de escape para solidão, medo e desejo de pertencimento. Tudo isso acontece sem que os personagens se deem conta da profundidade dessa dependência.

Solidão, afeto e a ilusão de conexão real

Muitos dos personagens retratados vivem em um estado de isolamento afetivo profundo. A presença dos bonecos os faz sentir-se acompanhados, ainda que em silêncio.

Essa ilusão de companhia cria uma zona de conforto, na qual eles acreditam ter um vínculo com alguém, mesmo sem saber sua identidade. O que parece proximidade é, na verdade, uma relação baseada em projeções e fantasias.

O afeto gerado é real, mas sustentado por uma base frágil, que pode ruir a qualquer momento. É, assim, que a autora nos mostra como a carência nos faz aceitar relações vazias como válidas.

Os substitutos emocionais

Em muitas histórias, os dispositivos se tornam válvulas de escape para dores emocionais que os personagens não conseguem enfrentar. Ao interagir com os bonecos, eles aliviam traumas, lutos e frustrações. Veja alguns exemplos de como essa substituição acontece:

  • A perda de um ente querido leva à criação de um “santuário” para o boneco.
  • A solidão de uma senhora idosa é preenchida por cuidados com o robô.
  • Um adolescente encontra no boneco um amigo silencioso e constante.
  • Um homem em crise usa o dispositivo como meio de controle emocional.

Essas situações revelam como a tecnologia, mesmo sem intenção, acaba ocupando o lugar de relações humanas reais.

Limites da intimidade com um desconhecido virtual

O livro nos mostra que há momentos em que a linha entre proximidade e invasão é ultrapassada. A intimidade criada não é consensual em sua totalidade, pois muitas vezes um lado quer mais do que o outro está disposto a oferecer.

O simples fato de compartilhar a rotina com um estranho já gera expectativas, e nem sempre essas expectativas são saudáveis. O anonimato pode facilitar a abertura emocional, mas também dá margem a atitudes invasivas e perigosas.

Por essa razão, a escritora argentina nos faz levantar a seguinte questão: até que ponto conseguimos estabelecer relações seguras e verdadeiras sem saber com quem estamos lidando?

Cena do filme Janela Indiscreta que representa o voyeurismo assim como encontramos em Kentukis.

Privacidade, anonimato e poder nas conexões digitais

Ao explorar a vida de quem usa os dispositivos, Kentukis mergulha fundo em questões éticas sobre vigilância, controle e exposição. Schweblin propõe uma crítica direta à maneira como abrimos mão da nossa privacidade em troca de conexão.

Em tempos de redes sociais, em que tudo é compartilhado, o livro convida à reflexão sobre os limites entre o público e o privado.

O anonimato digital, por outro lado, dá ao observador um poder imenso. E muitas vezes perigoso. O que pode parecer uma relação inofensiva se revela um jogo de domínio e vulnerabilidade.

A falsa sensação de controle sobre a própria vida

Os personagens que se deixam observar acreditam estar no controle da situação. Afinal, foram eles que ativaram o dispositivo. No entanto, o livro mostra que essa sensação é enganosa.

Pois em pouco tempo, os observadores passam a influenciar comportamentos e decisões de quem está sendo observado. A privacidade se desfaz em pequenos gestos, e a rotina se adapta à presença invisível do outro.

O medo de julgamento e a curiosidade sobre quem está do outro lado criam um jogo psicológico intenso. O controle, nesse cenário, é apenas uma ilusão reconfortante.

E qual o contrato social implícito nas relações com os Kentukis?

Mesmo sem regras formais, os usuários dos dispositivos acabam criando um tipo de pacto não verbal, em que cada um assume um papel. Ainda que silencioso, esse contrato tem implicações morais e práticas. Algumas das expectativas envolvem:

  • Respeitar o espaço íntimo do outro.
  • Não tentar descobrir a identidade do observador.
  • Evitar confrontos diretos.
  • Manter certa rotina para agradar o “público”.
  • Fingir que não está sendo vigiado.

Ao longo da leitura, o leitor percebe que esse pacto frágil é quebrado com muita facilidade, e os resultados são quase sempre dolorosos ou inesperados.

Consequências éticas do anonimato e da exposição

O anonimato pode parecer libertador, mas o livro mostra que ele também abre espaço para comportamentos duvidosos. Ao não precisar se identificar, o observador se sente livre para julgar, invadir e até manipular.

Isso gera um desequilíbrio perigoso na relação, na qual uma das partes tem acesso total, enquanto a outra está vulnerável. Schweblin toca em questões como o limite entre curiosidade e voyeurismo.

Mas também no impacto psicológico de se saber constantemente observado. No fim, o anonimato se revela uma ferramenta ambígua, que tanto protege quanto corrompe.

Samanta Schweblin autora argentina do livro Kentukis.

Mas quem é Samanta Schweblin?

Samanta Schweblin é uma das autoras mais aclamadas da literatura contemporânea em língua espanhola. Nascida em Buenos Aires, na Argentina, ela conquistou leitores ao redor do mundo com narrativas inquietantes, que transitam entre o real e o absurdo, sempre provocando reflexões intensas sobre temas como controle, relações humanas, tecnologia e identidade.

Mas Kentukis está longe de ser seu único sucesso. Antes dele, Schweblin já havia arrebatado críticos com o impactante Distância de Resgate, que foi finalista do International Booker Prize e adaptado para a Netflix como o filme O Fio Invisível. A obra mistura maternidade, envenenamento ambiental e um clima de horror psicológico.

Outros títulos imperdíveis são os livros de contos Pássaros na Boca, em que situações banais ganham contornos surreais, e Sete Casas Vazias, que explora a intimidade e os vazios afetivos com uma escrita afiada e desconcertante.

Resumo da ópera…

O livro Kentukis convida o leitor a encarar um mundo onde a tecnologia invade o cotidiano com um toque de fofura, mas também com consequências inquietantes. A obra escancara o quanto buscamos conexão, mesmo que isso signifique abrir mão da nossa intimidade.

Ao costurar diferentes histórias, Samanta Schweblin revela como os dispositivos se transformam em espelhos emocionais, projetando nossas carências, medos e desejos mais secretos.

Por mais que os bonequinhos pareçam inofensivos, a dinâmica que se estabelece entre usuários mostra o quanto podemos nos perder de nós mesmos, ao entregar o controle a um olhar anônimo.

No fim das contas, a autora não aponta soluções, mas levanta questionamentos essenciais sobre ética, privacidade e afeto digital. E talvez seja justamente essa dúvida que ecoa quando o livro termina: o que estamos dispostos a trocar em nome de um vínculo?

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