Terra fresca de sua tumba: o horror íntimo e brutal de Giovanna Rivero

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Depois de falar sobre o gótico andino no último artigo da seção de Estudos Literários, chegou a hora de trazer outra obra latino-americana que também explora o insólito: Terra fresca de sua tumba, de Giovanna Rivero.

Nesta coletânea, a autora boliviana constrói narrativas atravessadas por violência cotidiana, luto, memória, deslocamento e vulnerabilidade emocional.

Como outras contemporâneas, em vez de recorrer ao horror sobrenatural tradicional, Rivero aproxima o estranho da experiência humana e transforma relações familiares, afetos e traumas em fontes permanentes de tensão.

Então, fica comigo e continue a leitura deste artigo para conhecer mais sobre este livro que foi uma leitura feita no meu clube Traças-Latinas.

O que é Terra fresca de sua tumba?

Terra fresca de sua tumba reúne seis contos de Giovanna Rivero marcados por tensão emocional, deslocamento, luto e violência cotidiana.

Publicado no Brasil em coedição pelas maravilhosas editoras Incompleta e Jandaíra, o livro rapidamente chamou minha atenção, por ser de um país que pouco, nós brasileiros temos notícias no campo da literatura.

Embora, eu tenha nascido a 80 quilômetros de uma cidade boliviana que faz fronteira com o Brasil por Cáceres, Mato Grosso, eu nada conhecia sobre sua produção literária. Mas vamos ao livro?

Nesta obra, como disse anteriormente, Rivero se distancia do horror tradicional e constrói narrativas muito mais próximas do estranhamento e da fragilidade humana.

Além disso, os contos aproximam memória, corpo, natureza e desgaste emocional, criando atmosferas meio inquietantes sem depender de grandes acontecimentos sobrenaturais.

Embora, não tenha ficado entre meus favoritos livros de contos, a escrita de Rivero me foi tangível e pretendo ler seu romance 98 segundos sem sombra, também coeditado e publicado pela Incompleta e Jandaíra.

Mas, quem é Giovanna Rivero?

Giovanna Rivero nasceu em Montero, na Bolívia, em 1972, e construiu uma trajetória literária marcada pela experimentação, pela densidade emocional e pelo diálogo constante com o horror contemporâneo latino-americano.

Além de escritora, ela também atua como pesquisadora e professora universitária, o que contribui para a complexidade temática de sua obra. Ao longo da carreira, Rivero publicou romances, contos e textos ensaísticos que exploram temas como violência de gênero, deslocamento, culpa, religiosidade, corpo e trauma social.

Nos últimos anos, a crítica tem aproximado sua escrita de autoras como Mariana Enriquez, Samanta Schweblin e Mónica Ojeda, principalmente pela maneira como ela utiliza o horror para discutir tensões sociais e emocionais da América Latina.

Embora muitos críticos gostem de catalogá-la como gótico andino, Rivero desenvolve uma voz muito própria. Além disso, acredita que esta definição não faria jus a toda sua produção literária. Mas vamos entender em que pontos este gênero encontra-se na obra da boliviana?

O gótico andino em Terra fresca de sua tumba

Em seus contos, Giovanna Rivero utiliza a paisagem como elemento fundamental da narrativa. A chuva, os animais, a terra e os espaços urbanos não aparecem apenas como cenário, mas ajudam a construir atmosferas de estranhamento e tensão emocional.

Em Quando chove parece humano, por exemplo, a chuva acompanha a solidão e as memórias da protagonista, enquanto Irmão cervo aproxima os personagens da animalidade através do desgaste físico e emocional provocado pela experiência migratória.

Outro aspecto importante do gótico andino presente na coletânea envolve o horror cotidiano. Rivero transforma situações comuns em experiências inquietantes ao explorar luto, culpa, violência, precariedade e sensação de não pertencimento.

Dessa forma, Terra fresca de sua tumba constrói narrativas em que o desconforto nasce da própria realidade social e emocional das personagens, revelando um horror íntimo, silencioso e profundamente humano.

Foco no mapa da Bolívia, país de origem da autora e cenário que contextualiza a herança indígena de Terra fresca da sua tumba.

(…) Ser boliviano é uma doença mental, nos disse com aquele bom humor que fazia que perdoássemos tudo, inclusive isso, nos entregar feito bichos de estimação à tutela de tia Anita, que por mais balas de menta que tivesse posto entre os dentes na hora de se apresentar ao Juizado de Menores, seguia cheirando a uísque.

A Bolívia de Giovanna Rivero: desigualdade, violência e deslocamento

Embora Terra fresca de sua tumba não trate diretamente de acontecimentos políticos da Bolívia, os contos carregam marcas importantes da realidade social latino-americana.

Giovanna Rivero constrói personagens atravessados por precariedade, migração, luto e sensação de não pertencimento.

Essas experiências aparecem de maneira especialmente forte em narrativas como Pele de asno e Irmão cervo, nas quais os personagens vivem deslocamentos físicos e emocionais ligados à imigração e à sobrevivência econômica.

Além disso, a autora retrata relações humanas marcadas por instabilidade, silêncio e fragilidade emocional. Em Socorro, por exemplo, antigas tensões familiares revelam memórias distorcidas e violências nunca completamente verbalizadas.

Outro aspecto importante da coletânea envolve a sensação constante de vulnerabilidade. Muitas personagens parecem viver sem proteção emocional ou social, atravessadas por medo, solidão e desgaste cotidiano.

Em vez de construir grandes alegorias políticas, Rivero aproxima o horror da experiência íntima das personagens e revela como violência, exclusão e precariedade afetam os vínculos humanos.

Dessa forma, Terra fresca de sua tumba apresenta uma Bolívia marcada menos por descrições explícitas do país e mais pelas emoções, tensões e fragilidades que atravessam seus personagens.

O horror surge justamente dessa experiência de instabilidade constante, na qual memória, violência e deslocamento se confundem com a vida cotidiana.

Os contos de Terra fresca de sua tumba: análise conto a conto

Ao longo de Terra fresca de sua tumba, Giovanna Rivero constrói narrativas atravessadas por luto, deslocamento, violência, memória e sensação de não pertencimento.

Embora cada conto apresente personagens e contextos diferentes, todos compartilham atmosferas marcadas por tensão emocional, estranhamento e fragilidade humana.

A seguir, trago um breve resumo de cada narrativa da coletânea e dos principais temas que atravessam os contos.

Peixe, tartaruga, urubu

O conto de abertura acompanha a mãe de um jovem morto em um naufrágio. Ela recebe em casa o único sobrevivente da tragédia, um homem que permaneceu à deriva ao lado do filho morto durante meses no mar.

Enquanto prepara tortillas e conversa com o visitante, a personagem tenta reconstruir os últimos momentos do filho. Aos poucos, porém, a cordialidade inicial dá lugar à tensão, à suspeita e ao desconforto.

Quando chove parece humano

Quando chove parece humano acompanhamos Keiko, uma senhora descendente de japoneses que ensina origami para mulheres presas em Santa Cruz de la Sierra.

Há anos morando na Colônia Okinawa, comunidade fundada por imigrantes japoneses na Bolívia, ela revisita seu passado enquanto conduz suas oficinas e compartilha com o leitor que está alugando um quarto para Emma.

Emma lhe parece familiar, mas passamos o conto todo neblinados pela falta de lembrança da senhora Keiko. E quando finalmente ela se lembra, a chuva atravessa a narrativa reforçando a atmosfera inquietante e revelando os segredos da terra.

Socorro

Em Socorro, uma mulher retorna à casa da mãe e reencontra a tia Socorro, considerada mentalmente instável pela família. No início, os comentários da personagem parecem desconexos e delirantes.

No entanto, conforme a narrativa avança, antigas histórias familiares começam a se desfazer, revelando silêncios, distorções e possíveis violências escondidas durante anos.

Rivero trabalha o horror através da dúvida e da instabilidade emocional, desmontando certezas familiares aparentemente sólidas.

Pele de asno

Em Pele de asno acompanhamos dois irmãos órfãos que se mudam para o Canadá após a tia obter sua guarda.

Longe da Bolívia, eles passam a conviver com uma reserva indígena próxima e enfrentam experiências marcadas por deslocamento, exclusão e perda de identidade.

O conto dialoga livremente com o imaginário dos contos de fadas, mas transforma esse universo em uma narrativa sobre imigração, pertencimento e trauma familiar.

Irmão cervo

Irmão cervo acompanha um jovem casal boliviano que imigra para Ithaca, nos Estados Unidos, em busca de melhores condições de vida.

Longe do país de origem, os personagens enfrentam trabalhos precários, dificuldades financeiras e uma rotina marcada pelo desgaste físico e emocional. A experiência migratória atravessa todo o conto e reforça a sensação constante de desenraizamento.

Duas mulheres do povo indígena Aymara e uma criança caminhando de costas, trazendo a identidade andina presente em Terra fresca da sua tumba.

Em um dos sonhos mamãe aparecia sacudindo de seu vestido a terra fresca de sua tumba e as estrias de cinzas, suas próprias cinzas, do cabelo negríssimo.

La mansedumbre

Em La mansedumbre, Giovanna Rivero constrói uma narrativa atravessada por violência sexual, culpa e silenciamento feminino dentro de uma comunidade religiosa.

O conto acompanha Elise após um estupro e mostra como o trauma transforma sua relação com o corpo, com a fé e com a própria ideia de justiça. Ao mesmo tempo, Rivero contrapõe a lógica patriarcal da comunidade à espiritualidade indígena ligada à Pachamama.

Em vez de aceitar o sofrimento como destino inevitável, personagens indígenas defendem a ideia de uma justiça restaurativa da terra, em que a violência não permanece impune. Dessa forma, o conto aproxima religiosidade, trauma e vingança sem transformar a narrativa em denúncia direta ou alegoria simplificada.

Confira a resenha de outros livros do clube Traças-Latinas:

Mas e aí? Vale a pena ler Terra fresca de sua tumba?

Terra fresca de sua tumba certamente não é uma leitura confortável. Giovanna Rivero constrói contos atravessados por luto, deslocamento, violência, culpa e precariedade emocional, criando narrativas que permanecem na memória muito depois da última página.

No entanto, justamente por evitar fórmulas tradicionais do horror, a autora consegue transformar experiências íntimas e cotidianas em fontes constantes de estranhamento e tensão.

Além disso, o livro ocupa um espaço importante dentro da literatura latino-americana contemporânea ao aproximar horror, trauma social e fragilidade humana. Rivero não utiliza o medo apenas como entretenimento.

Terra fresca de sua tumba pode interessar especialmente leitores que apreciam narrativas atmosféricas, psicológicas e ambíguas. Quem gosta da escrita de Mariana Enriquez, Samanta Schweblin ou Mónica Ojeda provavelmente encontrará aqui temas e inquietações semelhantes.

Mas lembre-se de que Giovanna Rivero constrói uma voz muito própria, marcada pela melancolia, pela animalidade e pela tensão silenciosa que atravessa toda a coletânea.

E agora, neste mês de maio estamos lendo ela: Samanta Schweblin. Mas desta vez Distância de resgate, editado e publicado pela editora Fósforo. Nosso encontro está marcado para junho, então dá tempo e sobra de você participar! Se inscreve aí!

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