O que faz um livro ser clássico e por que lê-los?

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Eu mesma já me perguntei por que este tema: o que faz um livro ser clássico continua sendo uma questão tão discutida?

Acontece que juntou a turminha do você precisa praticar aquilo que lê com a galera do best-sellers não estão com nada e conheceram a quadrilha do booktokers não são fontes confiáveis para falarem de livros. E aí, que virou um deusas nos acudam.

Teve gente mostrando carteirinha de graduado em Letras, teve gente chateadíssima por ter seu livro criticado. E era para eu ter trazido esse tópico antes, mas daí me perguntei: será que eu tenho o direito e cacife para falar sobre isso?

Porque vejam amigos, eu sou uma fugitiva da academia. Não sei ainda se um dia voltarei meus pés dentro da universidade para estudar, pois tenho medo de me perder entre seus muros e nunca mais ter notícias do lado de fora.

Mas resolvi deixar minha síndrome de impostora de lado e cá estamos. Portanto, neste post evocaremos a presença de Ítalo Calvino e seu famoso ensaio: Por que ler os clássicos?, que está dentro deste livro aqui para colocarmos alguns pontos nos is.

Neste artigo você entenderá primeiro o que é um livro clássico, depois os conceitos de clássicos e cânones e por fim, juntos, porque me incluo nessa jornada, entenderemos por quê então devemos dar chance aos clássicos.

O que é um clássico?

A pergunta parece simples, mas são muitas camadas. Pois, para muita gente, um clássico é apenas um livro antigo, daqueles que ficam nas estantes das bibliotecas e que os professores recomendam (ou exigem) nas listas de leituras obrigatórias.

Mas a verdade é que um clássico não se define apenas pela idade. Pois há livros recentes que já carregam essa aura, enquanto outros, mesmo tendo sobrevivido ao tempo, não necessariamente entram nessa categoria.

Um clássico continua sendo relevante ao longo dos anos, trazendo novos significados a cada geração. Um clássico nos faz sentir que já ouvimos aquela história antes, mesmo que seja a primeira vez que a lemos. Ele se infiltra na cultura, nos referenciais, nos debates.

Sabe aquele livro que te impactou, mas quando você foi questionado sobre, não sabe nem por onde começar a explicar sua história? Este é um clássico!

É uma história que é ao mesmo tempo impossível de contar, de esquecer, de calar. Mas o que fazer do que é inenarrável, inesquecível e irredutível ao silêncio?
– A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Sarr –

Mas será que todo livro que resiste ao tempo pode ser chamado de clássico? Aqui entra a diferença entre clássico e cânone, um debate que também merece atenção.

Então quais as diferenças entre clássico e cânone?

Os termos clássico e cânone costumam ser usados como sinônimos, mas eles não significam exatamente a mesma coisa.

Enquanto o clássico é um livro que atravessa gerações e continua relevante, o cânone envolve uma seleção de obras consideradas essenciais dentro de um contexto cultural, acadêmico ou literário.

Ou seja, nem todo clássico faz parte do cânone, e nem tudo que está no cânone é necessariamente um clássico. Ou seja, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa completamente diferente.

O cânone literário, por exemplo, é formado por obras que foram escolhidas como referências dentro da tradição literária de um país ou período. Essas escolhas, no entanto, não são neutras.

Fatores históricos, sociais e até políticos influenciam quais livros entram e quais são deixados de lado. Por isso, há debates constantes sobre a necessidade de revisar o cânone e incluir novas vozes, principalmente de grupos marginalizados.

Já o clássico sobrevive por conta própria. Ele não precisa de uma validação acadêmica para ser lido e relido. Atenção, vou repetir em caixa alta: ELE NÃO PRECISA DE UMA AVALIAÇÃO ACADÊMICA PARA SER LIDO, RELIDO E SER CHAMADO DE CLÁSSICO (ufa!).

Seu impacto vai além do tempo em que foi escrito, conversando com diferentes épocas e leitores. Afinal, um clássico nunca se esgota – ele sempre tem algo novo a oferecer.

Adaptação do livro clássico de Victor Hugo, Os miseráveis com Hugh Jackman e Anne Hathaway.

Alguns cânones pra chamar de seu clássico:

E o Ítalo Calvino, hein?

O que é que ele diz sobre os clássicos? O escritor nos dá uma definição fascinante sobre os clássicos: são livros que nunca terminam de nos dizer algo novo.

Em seu ensaio, ele argumenta que essas obras vão além do tempo e do espaço, moldando gerações de leitores, além disso, não é apenas a sua antiguidade, mas a sua capacidade de permanecer relevante e dialogar com diferentes épocas.

Mas para você entender melhor, vou te contar melhor algumas das reflexões do escritor sobre os clássicos e entender por que eles continuam essenciais.

Clássico é o livro que nunca termina de dizer o que tem a dizer

Os clássicos são textos que se renovam a cada leitura. Calvino destaca que um livro clássico sempre traz algo novo, pois sua riqueza permite múltiplas interpretações.

O leitor pode revisitá-lo em diferentes momentos da vida e descobrir novas camadas de significado.

Além disso, essas obras influenciam outras narrativas e continuam sendo referência para escritores contemporâneos. Um exemplo do que acabei de falar é Morangos Mofados de Caio Fernando Abreu, que deu este título ao seu livro de poesias porque ao final em A hora da estrela, a personagem narradora de Clarice Lispector nos relembra:

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Por isso, quanto mais se lê um clássico, mais ele se expande, mostrando que nunca deixa de comunicar algo.

A relação pessoal e única de cada leitor com os clássicos

Mas é claro, que não há uma única forma de ler um clássico. Cada leitor estabelece um vínculo pessoal e subjetivo com essas obras.

Algumas pessoas encontram neles um reflexo de suas próprias experiências, enquanto outras os encaram como um desafio intelectual. O importante é que os clássicos falam de maneira única para cada um, tornando a leitura uma experiência individual.

Assim, um mesmo livro pode gerar interpretações completamente diferentes, dependendo do momento de vida de quem o lê.

Uma coisa eu posso te garantir, depois de ler um clássico, jamais você será a mesma pessoa. A leitura de clássicos pode transformar um leitor.

Livros clássicos numa estante.

Será que meu livro preferido pode ser um clássico?

Ítalo Calvino desenvolveu alguns critérios para identificar o que torna uma obra atemporal e relevante para diferentes gerações. Mesmo livros contemporâneos podem se tornar clássicos no futuro, dependendo de certos fatores.

Se você já se perguntou se aquele livro que marcou sua vida pode ser um clássico, este trecho vai te ajudar a entender os critérios de Calvino e como eles podem se aplicar às suas leituras favoritas.

O que faz de um livro ser clássico, segundo Calvino

É preciso que a obra ultrapasse modismos e mantenha sua relevância ao longo dos anos. Algumas características que ajudam um livro a se tornar um clássico incluem:

  • Temas universais: histórias que falam de amor, identidade, medo ou poder costumam se conectar com diversas gerações.
  • Estilo literário marcante: a forma como o autor escreve também contribui para a longevidade da obra.
  • Impacto cultural: livros que geram debates ou inspiram adaptações podem ter uma trajetória mais longa na literatura.
  • Relançamentos e reinterpretações: quanto mais um livro é revisitado, mais chances ele tem de se tornar um clássico.

Há uma definição de grandes livros muito interessante no livro: A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Saar, que gostaria de compartilhar com vocês.

Um grande livro sempre fala de nada e, no entanto, tudo está lá. Nunca mais caia na armadilha de querer dizer do que fala um livro que você acha grande. Essa é a armadilha que a opinião prega. As pessoas querem que um livro fale necessariamente de alguma coisa. A verdade, Diégane, é que só um livro medíocre, ruim ou banal, fala de alguma coisa. Um grande livro não tem assunto e não fala de nada, procura apenas dizer ou descobrir alguma coisa, mas esse apenas já é tudo, assim como essa coisa já é tudo.

Disponível no site da Editora fósforo, este livro pode ser comprado com desconto, se você for bibliotecário ou professor, é só se cadastrar aqui.

Podemos bater o martelo?

A real é que os clássicos não precisam de selo de aprovação de ninguém, nem dos acadêmicos, nem da turminha de 2010 que odeia Crepúsculo.

Eles sobrevivem porque falam sobre nós, sobre nossas contradições, nossos anseios e nossos dilemas. E quer saber? Isso inclui até aquele livro que você leu e nem percebeu que já virou um clássico no seu coração. Eu tenho certeza de que você pensou no seu livro preferido.

Ratifico: um clássico não precisa ser um estandarte que você precisa carregar para se afirmar como leitor, não! Livros precisam ser uma descoberta. Se ele nos fazem sentir e refletir então pronto, missão cumprida.

Ps.: Os clássicos da Traça-Livros

Vai aí uma lista de livros que eu considero os meus clássicos:

Em nossa próxima seção de estudos literários, vamos entender o que é o romance de formação. Assine o Correio da Traça para não perder nenhum post.

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