O livro Pachinko é bom? Confira a resenha!

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Se você quer ler um romance histórico sobre imigração e pertencimento, o livro Pachinko pode ser o que você procura. Fiz esta leitura junto ao Lendo Mulheres Pelo Mundo e confesso que tive que deixar o meu olhar contemporâneo um pouco de lado.

Ao acompanhar quase cem anos da trajetória de uma família coreana vivendo no Japão, a narrativa revela como escolhas individuais podem atravessar gerações inteiras.

Ao longo do romance, temas como identidade, pertencimento e exclusão social surgem de forma constante e nada simplificada. Min Jin Lee constrói personagens complexos, humanos e contraditórios, o que torna a leitura envolvente.

Além disso, o texto escancara as engrenagens do racismo estrutural sem recorrer a discursos didáticos. Por isso, Pachinko se consolida como uma obra profunda, atual e impossível de ler com distanciamento.

Pachinko como saga familiar marcada por escolhas difíceis

O livro Pachinko constrói sua força narrativa a partir das decisões individuais que moldam destinos coletivos. Desde o começo, a história deixa claro que nenhuma escolha acontece no vazio: cada atitude carrega consequências que atravessam décadas.

Ao acompanhar diferentes gerações de uma mesma família, o romance mostra como sacrifício, honra e sobrevivência se entrelaçam no cotidiano.

Além disso, a trama reforça que amar, cuidar e resistir nem sempre seguem caminhos fáceis. Por isso, a saga familiar se torna o eixo emocional do livro, conectando passado, presente e futuro de forma intensa.

Sunja e o peso das decisões que atravessam gerações

Sunja ocupa um papel central na narrativa justamente porque são as suas escolhas que inauguram todo o conflito familiar que leva a imigração desta ao Japão.

Ao recusar ser a segunda esposa e o conforto financeiro oferecido pelo pai de seu filho, Hansu, ela afirma sua dignidade em um contexto profundamente desigual.

Essa decisão, embora dolorosa, estabelece um legado de resistência moral que influencia filhos e netos. Ao longo do tempo, a história mostra como esse gesto inicial se transforma em herança emocional, marcada por orgulho, culpa e responsabilidade.

Mulheres, maternidade e sobrevivência em contextos hostis

As personagens femininas enfrentam um mundo que cobra obediência, silêncio e abnegação. E para mim, essa foi a parte mais difícil de encarar essa leitura.

Mas ainda assim, elas encontram formas próprias de sobreviver sem perder completamente a autonomia. A maternidade surge como experiência ambígua, misturando afeto, medo e renúncia, longe de qualquer idealização.

Além disso, o texto mostra como essas mulheres aprendem a negociar com estruturas sociais opressoras para proteger suas famílias.

Em vez de heroínas idealizadas, o romance apresenta figuras reais, contraditórias e fortes justamente por continuarem em movimento, mesmo quando tudo parece empurrá-las para a margem.

Afeto, lealdade e rupturas dentro da família

As relações familiares no romance nunca seguem linhas simples. Pelo contrário, elas se constroem entre gestos de cuidado e conflitos silenciosos. Ao longo da narrativa, alguns elementos se repetem e ajudam a entender essas dinâmicas:

  • Lealdade como valor herdado, mesmo quando machuca;
  • Afeto contido, expresso mais por ações do que por palavras;
  • Rupturas emocionais causadas por expectativas não atendidas;
  • Conflitos geracionais entre tradição e desejo de mudança.

Esses fatores mostram como a família funciona tanto como abrigo quanto como espaço de tensão constante.

Identidade e exclusão dos coreanos no Japão do século XX

No livro Pachinko, a questão da identidade não surge por acaso. A presença de coreanos no Japão nasce de um processo violento de colonização e dominação imperial, quando o Japão anexou a Coreia no início do século XX.

Milhares de coreanos foram levados, direta ou indiretamente, ao território japonês como mão de obra barata, muitos sem qualquer possibilidade real de escolha.

O romance evidencia como esse passado colonial estrutura o preconceito cotidiano, afetando trabalho, relações sociais e a própria percepção de valor pessoal. Assim, pertencer passa a ser uma luta constante, marcada por resistência e adaptação forçada.

Contexto histórico: eventos reais que atravessam Pachinko

Como você entenderá a seguir, a história narrada em Pachinko se constrói a partir de acontecimentos reais que moldaram a vida de milhões de coreanos ao longo do século XX.

  • Colonização japonesa da Coreia (1910–1945): a anexação da Coreia pelo Japão impõe políticas de assimilação forçada, apagamento da língua e da cultura coreana, além da desapropriação de terras, levando à pobreza e à migração.
  • Movimento de 1º de Março (1919): protestos pacíficos pela independência coreana sofrem repressão violenta, reforçando o controle colonial.
  • Migração e marginalização no Japão (anos 1920–1930): coreanos passam a viver em bairros periféricos, enfrentando discriminação no trabalho, na educação e na moradia.
  • Grande Terremoto de Kantō (1923): rumores falsos após o desastre resultam em massacres de coreanos, expondo o racismo latente na sociedade japonesa.
  • Segunda Guerra Mundial e trabalho forçado (1937–1945): a expansão militar japonesa intensifica a exploração de trabalhadores coreanos em fábricas e obras.
  • Rendição do Japão e fim da colonização (1945): o término da guerra encerra o domínio colonial, mas deixa os coreanos no Japão em um limbo jurídico e social.
  • Divisão da Coreia e Guerra da Coreia (1950–1953): a separação entre Norte e Sul aprofunda rupturas familiares e identitárias entre os imigrantes.
  • Ascensão da indústria de pachinko (pós-guerra): excluídos do mercado formal, muitos coreanos encontram nos salões de pachinko uma forma de sobrevivência econômica.

Esse eventos históricos centrais na narrativa explicam o racismo estrutural, a exclusão social e o sentimento constante de não pertencimento vividos pelos personagens.

A condição dos zainichi e o racismo estrutural

Os chamados zainichi, coreanos residentes no Japão, não ocupam uma posição marginal por acaso. O romance deixa claro que o racismo enfrentado por essas famílias nasce dessa lógica colonial que hierarquizou povos e identidades.

Mesmo após o fim da ocupação japonesa na Coreia, o estigma permanece. Escolas, empregos e moradia funcionam como filtros silenciosos de exclusão, mantendo essas pessoas sempre à margem.

Além disso, o texto mostra como essa discriminação se normaliza, tornando-se parte do cotidiano. Muitos personagens aprendem a mover-se com cautela, a esconder origens e a evitar conflitos.

Essa estratégia garante sobrevivência, mas cobra um preço emocional alto e contínuo. Por consequência, há muitos personagens que escolhem pôr fim a própria vida.

Pachinko como metáfora do acaso e da sobrevivência

No livro Pachinko, os salões de jogo funcionam como um dos símbolos mais potentes da narrativa. Eles aparecem como cenário, mas também como espaços onde questões econômicas, sociais e existenciais se cruzam.

Ao mesmo tempo, o próprio funcionamento do jogo espelha a lógica que atravessa toda a história. Nada garante recompensa, mesmo quando existe esforço constante.

Bolas caem, trajetórias se desviam e o resultado nunca depende apenas da vontade de quem joga. Essa dinâmica reflete a experiência dos imigrantes coreanos no Japão, presos a um sistema que raramente reconhece mérito.

Ainda assim, continuar jogando, ou insistindo, se transforma em um gesto de resistência. Apostar, perder e tentar de novo passa a fazer parte da rotina, não por esperança ingênua, mas por falta de alternativas.

Mas o que é o pachinko?

É um jogo popular no Japão, semelhante a uma mistura de pinball com caça-níqueis. O jogador lança pequenas bolas metálicas que percorrem um trajeto cheio de obstáculos, dependendo muito mais do acaso do que da habilidade.

No Japão, os salões de pachinko sempre ocuparam um espaço social ambíguo: amplamente frequentados, mas associados à marginalidade. Por conta disso, muitos coreanos excluídos do mercado formal encontraram nesse setor uma das poucas formas de trabalho e renda.

Dessa forma, o romance utiliza o pachinko como metáfora da vida desses personagens: repetitiva, imprevisível e arriscada, mas sustentada por uma necessidade profunda de seguir em frente. O livro não romantiza essa instabilidade, mas mostra como sobreviver, muitas vezes, significa apenas não desistir.

Sorte, repetição e o ciclo de esperança frustrada

Ao longo da narrativa, alguns padrões se repetem e ajudam a entender o papel simbólico do jogo:

  • Repetição diária como forma de sobrevivência
  • Esperança insistente, mesmo após perdas constantes
  • Ilusão de controle sobre resultados imprevisíveis
  • Cansaço emocional gerado pela instabilidade

Esses elementos mostram como a esperança, embora necessária, também pode se tornar exaustiva quando nunca se concretiza plenamente.

Linha do tempo dos personagens do livro Pachinko

  • Início do século XX – Coreia: Sunja nasce em uma vila costeira durante a ocupação japonesa e toma uma decisão que define o destino de sua família.
  • Década de 1910 – Migração para o Japão: Sunja se casa com Isak Baek e migra, iniciando a vida como imigrante em um contexto de exclusão e pobreza.
  • Anos 1920–1930 – Primeira geração no Japão: Nascem Noa e Mozasu, que seguem caminhos opostos diante do preconceito.
  • Segunda Guerra Mundial (1939–1945): A família enfrenta repressão, escassez e perdas profundas.
  • Pós-guerra – Reconstrução: Noa busca aceitação social; Mozasu encontra sustento no pachinko, simbolizando sobrevivência econômica.
  • Anos 1980 – Nova geração: Solomon representa a tentativa de romper ciclos históricos de exclusão.
  • Encerramento: A trajetória de Sunja conecta gerações marcadas por resistência, identidade e pertencimento.

Conclusão

Respondendo a sua possível dúvida de começar a lê-lo ou não: sim, Pachinko é um livro muito bom. A força do romance está na forma como transforma uma saga familiar em um retrato sensível de exclusão, resistência e pertencimento.

Min Jin Lee constrói personagens humanos, cheios de contradições, e mostra como decisões individuais se chocam com estruturas históricas duras. Além disso, a narrativa mantém ritmo, emoção e profundidade sem se tornar pesada.

Por isso, a leitura marca, incomoda e permanece. Se você busca um livro que una boa literatura e reflexão social, Pachinko vale muito a pena. Quer participar da próxima leitura do Lendo Mulheres Pelo Mundo? Siga-nos em nosso intagram.

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