Estamos sempre em mudanças, mas algumas são mais visíveis que outras. Algumas envolvem encaixotar memórias, sonhos e livros para recomeçar em um novo endereço. É com a alegria de quem abre a porta de uma casa nova que eu escrevo este post.
Sejam todos muito bem-vindes ao novo lar do blog! Para inaugurar este espaço, sinto a necessidade de recontar a história que me trouxe até aqui, a jornada que deu alma a este projeto: a Traça-Livros.
Se você está chegando agora ou se já me acompanhava antes, este não é apenas um post de boas-vindas; é um manifesto. É a história de como uma professora pendurou o giz, abraçou a vulnerabilidade e encontrou em um inseto peculiar a metáfora perfeita para sua existência.
Convido você a entrar, a se acomodar e a (re)descobrir a jornada que deu origem à Traça-Livros e que agora (re)floresce neste novo jardim digital.
A Mudança: deixando a pele antiga da traça para trás
Tudo começou com uma despedida. Por anos, minha identidade digital e profissional no instagram esteve atrelada a um prefixo: profe. Eu o criei por uma razão óbvia e funcional: eu dava aulas, e aquele era o meu canal com o mundo, a ponte entre minha vocação e a comunidade de alunos.
Mas a vida, com seus rumos inesperados, me levou para longe das salas de aula, fossem elas presenciais ou as telas remotas. Por essa razão, fiquei um tempo nesse limbo, vagando entre o tirar e o retirar o profe da minha identidade.
Foi então, nesse vácuo, nesse espaço de silêncio profissional, que um fluxo de criatividade que eu nunca pensei ter começou a jorrar. Encontrei-me numa estrada que nunca imaginei, criando conteúdos que jamais pensei serem relevantes.
A sensação foi como chegar em casa. Ou talvez, e mais importante, eu tenha parado de me importar com o que os outros pensam para ser simplesmente eu mesma. Essa libertação foi o solo fértil onde a semente da Traça-Livros começou a germinar.

O desenho: dando asas à metamorfose
Toda grande transformação precisa de um símbolo. E a minha veio em forma de desenho, uma imagem que traduzia tudo o que borbulhava dentro de mim.
Quando certa manhã acordei de sonhos fantasticamente intranquilos, encontrei-me em minha cama metamorfoseada numa pequenina mariposa.
A referência kafkiana não é acidental. A sensação era exatamente essa: a de despertar em um novo corpo, com novas asas e uma nova forma de ver o mundo.
Essa ilustração, que se tornou o emblema da Traça-Livros, foi um presente da minha amiga e diretora de arte preferida, Valéria Piemonte. Foi ela quem, com sua sensibilidade e talento, deu asas à minha traça.
A escolha partiu de vários intertextos, reais e fictícios. Havia a monstruosa ideia daquele inseto literário asqueroso de Kafka, mas também a realidade de quem passa metade das horas com o nariz enfiado em um livro.
Mas acima de tudo, havia o desejo de ser essa metamorfose ambulante, como cantava Raul, do que ter uma velha e arcaica opinião formada sobre tudo.
Porém, não confundir essa necessidade de sair da zona de conforto com ser volúvel. A mudança da Traça-Livros não é um voo errático, mas uma evolução consciente.
Essa senhora que vos fala, além de não ter um único elemento em ar em todo o mapa astral, é signo fixo raiz: terra com fogo, com água e com coração!
De Taurina Ferdinanda à traça com flor tatuada na asa, a jornada é de aprofundamento, não de dispersão. O desenho capturou essa dualidade: a delicadeza das asas e a força de uma identidade que, embora em mutação, é profundamente enraizada.
A palavra: a definição de uma Traça-Livros
Com a mudança consolidada e o símbolo criado, faltava a palavra. O nome. A ideia da traça surgiu de uma conversa com meu irmão, Eric, que me deu a solução em exatos três segundos.
O bichinho se demonstrou tão interessante e com tanto significado que resolvi adotá-lo. Pois a beleza estava em sua ambiguidade.
O termo traça é, na verdade, genérico. Ele abrange grupos de insetos bem diferentes entre si, e foi nessa polissemia que encontrei minha liberdade poética.
Existem as traças-dos-livros (da ordem Zygentoma), aqueles bichinhos prateados que, ironicamente, se alimentam da cola e do papel das nossas preciosas obras. Existem as traças-das-roupas (da ordem Lepidoptera), que são, na verdade, a fase larval das mariposas, vivendo em casulos antes de ganharem asas.
Pois então, criei minha própria classificação, uma transgressão biológica em nome da literatura. Apresento a vocês a terceira categoria: a Traça-Livros (da ordem dos humanos).
Essa espécie rara representa a fase hibernal da humanidade, aquele estado de ser em que nos recolhemos no casulo de uma história, inebriados pelo cheirinho peculiar de páginas amadas.
Sim, sei que Darwin e seus derivados estão chorando em seus túmulos neste momento, mas como sempre digo: em terra de literatura, tudo se pode e tudo me convém!
Portanto, a Traça-Livros é a união dessas ambiguidades. É aquela que devora livros, não para destruí-los, mas para se alimentar de suas histórias. A que vive em um casulo de narrativas, mas que, ao final de cada leitura, emerge transformada, com novas asas para ver o mundo.
A leitora: quem é a Traça-Livros por Trás da Traça?
Agora que o conceito está claro, é hora de apresentar a pessoa. Meu nome é Nayara Krause. Tenho 40 anos de estrada e de vida. Minha jornada acadêmica foi dupla: primeiro, formei-me em Direito, até descobrir que sou torta de coluna, de joelho e, principalmente, de ideia.
A retidão das leis não era para mim. Foi na segunda formação, em Letras, que descobri a paixão que me moveria na terra e no céu.
Sou leitora, professora, redatora e revisora de livros. Mas meu sonho mais profundo é um dia ser escritora. E se tudo der certo e os anjos disserem amém, este projeto logo sairá do papel.
Ler, para mim, nunca foi um hábito. Pois, hábito é algo que se cultiva, que se força. Já, a leitura é parte de quem eu escolhi ser.
Além disso, se minha mãe contasse por aí que já nasci com um livro na mão, as pessoas não achariam esquisito. Portanto, o livro é uma extensão do meu corpo.
Digo também que é uma escolha, pois se eu tiver de optar entre fazer qualquer outra coisa no mundo (que não seja comer pizza, claro), eu escolheria ficar em casa com um livro.

Os clubes da Traça-Livros
O projeto A Traça-Livros nasceu do desejo de compartilhar leituras, mas logo percebi que existem diferentes fomes literárias.
Para atender a esses apetites distintos, criei dois clubes de leitura, cada um com sua própria identidade e propósito, funcionando como duas tribos dentro da nossa comunidade de traças.
Além disso, para fortalecer a leitura de livros escritos por mulheres participo da curadoria e mediação também do Lendo Mulheres pelo Mundo. A seguir conheça-os melhor.
Dois apetites, dois clubes: conheça a Traçaria-Literária e o Traças-Latinas
Para quem busca a efervescência das listas de mais vendidos e a troca de ideias sobre os livros do momento, nasceu a Traçaria-Literária.
Este é o nosso clube gratuito e colaborativo, uma verdadeira muvuca literária. Aqui os próprios participantes sugerem e votam nas leituras mensais. É um espaço dinâmico, aberto e perfeito para quem ama a diversidade da literatura popular.
Já para as leitoras que desejam uma imersão profunda e um estudo guiado, criei o Traças-Latinas. Este é o nosso círculo de estudos pago, dedicado a mapear o horror e o insólito na literatura latino-americana escrita por mulheres.
Com uma curadoria pré-definida, cada encontro é um mergulho em uma obra específica, explorando suas camadas, contextos e potências. É uma jornada para quem não tem medo de escavar as veias abertas da nossa literatura.
Lendo Mulheres pelo Mundo: uma janela para a literatura mundial feminina
Já este clube de leitura conjunta tem uma outra proposta e aqui, a convite, eu divido a curadoria e mediação com duas mulheres incríveis: Tati Guedes, do Palavra Livro e Simone Masruha Ribeiro, do Simone e Seus Livros, o Lendo Mulheres pelo Mundo.
Este é um clube de leitura conjunta com uma proposta simples e poderosa: a cada mês, viajamos para um país diferente através da obra e voz de uma escritora.
É uma jornada para ampliar nosso repertório, conhecer novas culturas e entender as complexidades do mundo sob a ótica feminina. Da Irlanda de Claire Keegan ao Moçambique de Paulina Chiziane, passando pelo Brasil de Conceição Evaristo e o Chile de Lina Meruane, vamos juntas construir um mapa afetivo da literatura mundial.
O objetivo é celebrar a diversidade da produção literária feminina global, descobrindo joias escondidas e clássicos contemporâneos de todos os continentes. É um convite para expandir horizontes, uma leitura de cada vez.
Bem-vinda(e) ao meu novo casulo!
E é com essa identidade, a da Traça-Livros, que eu declaro oficialmente inaugurado este novo blog. Esta é a nossa nova casa, o nosso casulo digital.
Um espaço para compartilhar essa paixão, para conversar sobre os livros que nos transformam, as ressacas que nos assolam e as novas asas que ganhamos a cada ponto final.
Se você também se sente uma Traça-Livros, se encontra refúgio e identidade nas páginas de um livro, então sinta-se em casa. Explore os cantos, deixe seus comentários, compartilhe suas leituras. Estou imensamente feliz em recebê-los neste novo começo.
Ps.: Sim, fiz referência ao casmurro narrador de certo livro nessas apresentações! Não gostar de um título literário não significa não reconhecer que o livro é fantástico. Às ciganas de olhares oblíquos e dissimulados, eu lhes dedico este post scriptum.