Dezenove escritoras brasileiras se reuniram para entender o que a mulher contemporânea pensa quando pensa em terror e O dia escuro: contos inquietantes de autoras brasileiras foi o resultado deste encontro.
Este livro reúne histórias que mergulham o leitor em territórios onde o cotidiano parece familiar até deixar de ser. Pois, logo nas primeiras páginas, a obra revela um conjunto potente de narrativas escritas, que exploram o desconforto, o estranho e o inesperado como elementos centrais da experiência literária.
Essa foi a nossa primeira leitura no clube de leitura conjunta Traças-Latinas e eu vim aqui dividir com vocês a nossa experiência e tudo o que discutimos em nosso encontro.
Percebemos que as autoras desta coletânea não apostaram apenas no susto ou no sobrenatural explícito. Pelo contrário, muitos contos constroem uma tensão lenta, que nasce de situações aparentemente comuns e se transforma em algo perturbador.
Além disso, as narrativas revelam como o estranho pode emergir do cotidiano, das relações afetivas ou da própria memória. Este livro pode ser uma leitura envolvente para quem se interessa por literatura brasileira contemporânea e pelas múltiplas possibilidades do insólito literário.
O insólito feminino em O dia escuro e suas múltiplas formas
Depois de trazer meu breve estudo sobre o insólito e sua relação com a literatura latino-americana sob o olhar feminino, chegou o momento de aplicá-lo às viagens e leituras que estamos fazendo pela América Latina.
Dessa forma, busquei, em conjunto com o clube, observar como o estranho, o inquietante e o fantástico se manifestam nas histórias, muitas vezes revelando tensões sociais, memórias coletivas e experiências profundamente marcadas pela realidade latino-americana.
E a coletânea O dia escuro nos mostrou como o insólito pode surgir em espaços aparentemente comuns. Ao longo dos contos, situações domésticas, relações familiares e pequenas tensões cotidianas se transformam em experiências inquietantes.
Além disso, percebemos como as narrativas exploram o desconforto emocional, os silêncios e as contradições que muitas vezes atravessam a experiência das mulheres. Dessa forma, esses contos nos convidaram a perceber o quanto o cotidiano pode esconder zonas de inquietação.
Personagens femininas diante do estranho e do absurdo
As protagonistas dos contos frequentemente enfrentam situações que desafiam sua percepção da realidade, como no conto A troca, de Fabiane Guimarães, no qual a personagem insiste em dizer que teve a mãe trocada.
Essas personagens lidam com experiências que parecem absurdas, mas que também revelam conflitos internos profundos, como o tema da maternidade que é retratado em Chorona, conto que traz a revelação do título do livro em seu contexto.
Ao mesmo tempo, essas personagens não aparecem apenas como vítimas do estranho. Em muitos casos, elas confrontam o desconhecido, questionam suas próprias certezas e descobrem novas formas de lidar com o medo.
Dessa maneira, a narrativa cria retratos complexos de mulheres que atravessam experiências limite, onde o cotidiano e o inexplicável se misturam de forma perturbadora.
O desconforto como força narrativa nos contos
Em vez de buscar apenas o impacto imediato, as autoras investem em uma estratégia diferente: criar sensações de desconforto progressivo, como Profundeza, de Eliane Alves Cruz (que para muitas participantes ficou como o conto preferido).
Esse recurso transforma a leitura em uma experiência intensa e muitas vezes perturbadora. Entre os elementos que fortalecem esse efeito, destacam-se:
- Ambientes aparentemente normais que escondem algo estranho
- Silêncios e ambiguidades que aumentam a tensão narrativa
- Memórias ou traumas que retornam de maneira inesperada
- Situações absurdas que desafiam a lógica cotidiana
Com essa construção cuidadosa, os contos exploram o poder da atmosfera literária, mostrando que o medo pode surgir justamente onde menos se espera.

As autoras brasileiras que ampliam o território do inquietante
A coletânea O dia escuro também chama atenção pela diversidade de vozes femininas presentes nas narrativas. Organizada por Socorro Acioli e Fabiane Secches, a antologia reúne vinte escritoras brasileiras de diferentes gerações e trajetórias literárias, criando um panorama interessante da produção literária feminina contemporânea.
Entre os nomes presentes estão Amara Moira, Ana Rüsche, Andréa del Fuego, Carola Saavedra, Cidinha da Silva, Dia Nobre, Eliana Alves Cruz, Fabiane Guimarães, Flavia Stefani, Jarid Arraes, Laís Romero, Lygia Fagundes Telles, Marcela Dantés, Maria Valéria Rezende, Mariana Salomão Carrara, Micheliny Verunschk, Natalia Borges Polesso, Natércia Pontes, Socorro Acioli e Trudruá Dorrico.
E assim, partindo do conto O dedo da consagrada Lygia Fagundes Telles, todas elas se juntaram para responder a seguinte pergunta: o que as mulheres contemporâneas pensam quando pensam em terror?
Além disso, O dia escuro mostra como essas escritoras dialogam com tradições do fantástico, do horror psicológico e do insólito.
Por isso, a coletânea reúne diferentes estilos, mas também revela como a literatura inquietante brasileira se renova a partir de múltiplas experiências sociais, estéticas e regionais.
Diversidade de vozes femininas na literatura fantástica
Uma das grandes qualidades da coletânea está justamente na pluralidade de estilos narrativos. Cada autora trabalha o insólito de maneira própria, o que mantém a leitura dinâmica e surpreendente.
Escritoras como Andréa del Fuego, Ana Rüsche e Marcela Dantés, por exemplo, exploram atmosferas densas e simbólicas, enquanto Jarid Arraes, Cidinha da Silva e Eliana Alves Cruz trazem narrativas que dialogam com questões sociais e históricas.
Ao mesmo tempo, autoras como Amara Moira, Flavia Stefani e Laís Romero apresentam abordagens que transitam entre o estranhamento cotidiano e o absurdo.
Essa diversidade cria um mosaico narrativo bastante rico e mostra como as escritoras brasileiras não se limita a um único modelo estético. Pelo contrário, as escritoras presentes na coletânea ampliam as possibilidades do insólito latino americano sob o olhar feminino.
O diálogo entre horror psicológico e crítica social
Muitos contos presentes na coletânea vão além do susto ou da surpresa. Em vez disso, utilizam o estranho para refletir sobre relações humanas e estruturas sociais.
Autoras como Carola Saavedra, Flávia Stefani e Natalia Borges Polesso exploram conflitos íntimos e tensões psicológicas que atravessam a vida cotidiana.
Já narrativas assinadas por Micheliny Verunschk, Dia Nobre e Trudruá Dorrico revelam como o horror também pode dialogar com memória histórica, violência e desigualdade.
Assim, o insólito funciona como uma ferramenta poderosa de comentário social, permitindo que as histórias abordem temas como solidão, trauma e identidade. Dessa forma, o horror psicológico presente nos contos acaba funcionando como um espelho distorcido da realidade.
Três contos marcantes de O dia escuro e seus enredos perturbadores
Entre os muitos textos da coletânea O dia escuro, alguns contos nos chamaram muito a atenção pela forma como constroem narrativas intensas a partir de situações aparentemente simples.
Em vez de apostar apenas no sobrenatural, várias autoras trabalham com ambiguidades, memórias e tensões psicológicas que fazem o leitor questionar o que está realmente acontecendo.
A seguir, três contos ilustram bem essa proposta da coletânea e mostram como diferentes autoras exploram o insólito na literatura brasileira contemporânea.
O dedo, de Lygia Fagundes Telles: um achado inquietante na praia
O conto começa com uma cena aparentemente banal: a narradora caminha por uma praia em uma manhã de sol quando percebe algo estranho na areia. Ao se aproximar, descobre que se trata de um dedo humano, ainda com um anel preso a ele.
A partir dessa descoberta, a história se transforma em um fluxo de pensamentos e hipóteses. A narradora começa a imaginar quem poderia ser o dono daquele dedo, o que teria acontecido e qual história estaria por trás daquele fragmento de corpo.
O objeto encontrado passa então a provocar uma série de conjecturas quase obsessivas, revelando mais sobre a mente da narradora do que sobre o próprio mistério. Assim, o conto constrói seu efeito inquietante não pela ação, mas pela imaginação que se expande diante de um detalhe macabro.
Chorona, de Natércia Pontes: uma narradora à beira da ruptura
No conto de Natércia Pontes, acompanhamos uma mãe que começa a refletir obsessivamente sobre a figura da Chorona, personagem do folclore latino-americano associada a uma mãe que matou os próprios filhos.
Tudo começa quando ela assiste a um filme sobre essa lenda e passa a se perguntar o que poderia levar uma mãe a cometer um ato tão extremo. A partir daí, a narrativa mergulha no pensamento da protagonista.
Aos poucos, a história mistura reflexão, memória e delírio, levando o leitor a acompanhar uma mente que parece caminhar entre lucidez e possível psicose, até chegar a um desfecho perturbador.
Roma, de Andréa del Fuego: memória e deslocamento emocional
No conto curtíssimo de de Andréa del Fuego, acompanhamos a vida de Alcides e Alcebíades. Figuras masculinas descendentes da mesma placenta rica e privilegiada.
Ambos se unem em um pacto ambicioso já desde o ventre fazendo com que a mãe sonhasse durante a gravidez com chaminés industriais. Crescem sem limites, sem porteiras e acabam por tacar fogo na empregada.
Mas é muito interessante como a escolha do nome, a existência de filhos gêmeos antecipam a queima em Roma.
Conclusão
Ao reunir vinte escritoras com estilos e trajetórias distintas, O dia escuro se consolida como uma coletânea que amplia o alcance do insólito na literatura brasileira.
Em vez de depender apenas de elementos sobrenaturais, muitos contos exploram o desconforto que nasce dentro do próprio cotidiano. Pequenos gestos, memórias fragmentadas e relações familiares tensas se transformam, pouco a pouco, em experiências inquietantes.
Além disso, a antologia revela como a escrita feminina contemporânea tem reinventado o fantástico e o horror psicológico no Brasil.
Por fim, se você estava na dúvida sobre este livro, saiba que O dia escuro vale muito a pena. Pois ele oferece uma leitura envolvente para quem busca conhecer novas vozes da literatura brasileira contemporânea e se interessa por narrativas que exploram os limites entre realidade, imaginação e inquietação.
Bom e a nossa viagem pelo insólito na Literatura Latino Americana continua. E se você quiser participar do clube de leitura conjunta Traças-Latinas, é só se inscrever aqui. Nele há duas modalidades, a VIP e a FREE. Na VIP você recebe mensalmente um kit de journal com scraps baseados nos livros que estamos lendo no mês.