Os clubes de leitura estão ganhando cada vez mais força nos últimos tempos, especialmente entre mulheres. Mas esse crescimento não acontece por acaso.
Diversas pesquisas indicam que o público leitor, tanto no Brasil quanto no mundo, é majoritariamente feminino, e isso impacta diretamente a forma como a leitura se organiza coletivamente.
Além disso, os clubes de leitura se tornaram espaços de troca, identificação e construção de repertório, nos quais mulheres compartilham experiências, interpretações e afetos em torno dos livros.
Mais do que um simples encontro para discutir obras, esses grupos funcionam como redes de apoio cultural e intelectual.
Talvez fomos levadas pelo isolamento que a última pandemia nos colocou. Buscamos fazer pontes entre nossas bibliotecas e nossos anseios como forma de buscar pontos de afeto. Pelo menos, para mim foi assim.
Mas para entender melhor esse fenômeno, é preciso antes entender a relação entre o perfil do público leitor e a expansão dos clubes de leitura. Por isso, neste artigo vamos falar sobre isso e o mais importante sob o ponto de vista de quem media vários clubes de leitura.
Mulheres como maioria leitora: um dado que diz muito
Se a gente observar o comportamento leitor nas últimas décadas, um padrão se repete: mulheres leem mais. Elas compram mais livros, participam mais de eventos literários e, principalmente, mantêm uma relação mais constante com a leitura ao longo da vida.
Isso não significa apenas quantidade. Existe também uma dimensão qualitativa nessa relação. Muitas leitoras buscam na literatura não só entretenimento, mas também reflexão, identificação e elaboração emocional.
Por isso, a leitura acaba se tornando um espaço de construção de sentido, e, consequentemente, de compartilhamento. E é exatamente aí que os clubes de leitura entram.
Clubes de leitura como espaços de troca e pertencimento
E este é de fato um ponto inegável: os clubes de leitura surgem, muitas vezes, da vontade de não ler sozinha. E é muito engraçado, pois ler é uma experiência íntima, mas também pode ser profundamente coletiva quando existe troca.
Nesses espaços, não se discute apenas o enredo de um livro. Fala-se de vivências, de identificação com personagens, de incômodos e descobertas. Cada leitura se expande quando encontra outras leituras.
Além disso, os clubes criam um senso de pertencimento (ainda bem, minhas deusas). Em um mundo acelerado e, muitas vezes, individualista, parar para ler e conversar sobre literatura acaba se tornando quase um ato de resistência.
E, nesse cenário, mulheres encontram nesses encontros um espaço seguro de escuta e expressão.
Clubes de leitura como curadoria afetiva e política
Participar de um clube de leitura não é sobre e apenas escolher um livro por mês. Na prática, existe um trabalho de curadoria e, muitas vezes, ele é atravessado por afetos, experiências e posicionamentos.
Seja para ler mais livros clássicos, seja para ler mais vozes pelo mundo, seja para nos encontrarmos em nossa latinidade ou para chorarmos juntas: todo livro escolhido têm um propósito ali.
Quando mulheres escolhem o que ler coletivamente, elas também estão decidindo quais vozes serão ouvidas, quais histórias serão debatidas e quais perspectivas ganham espaço. Ou seja, ler em grupo não é, nunca foi e nunca será um ato neutro.
Além disso, essa curadoria costuma escapar das listas tradicionais. Em vez de seguir apenas o que já está consolidado no mercado, muitos clubes priorizam autoras contemporâneas, narrativas marginais ou obras que dialogam com questões urgentes, como gênero, raça e desigualdade (AMO, inclusive).
Esse movimento cria um efeito importante: amplia o repertório e tensiona o próprio cânone literário. Mas ao mesmo tempo, existe uma dimensão afetiva nesse processo.

Porque muitas escolhas partem de identificação. E aí quando essas leituras chegam ao grupo, elas deixam de ser experiências individuais e passam a ser compartilhadas (e aqui mora toda a beleza de estarmos juntas!)
Assim, os clubes de leitura funcionam como espaços onde curadoria e escuta caminham juntas. E talvez esteja aí uma das maiores forças desses encontros: eles não apenas acompanham o mercado literário, eles ajudam a moldá-lo.
A relação entre leitura, experiência e identificação
Uma das razões pelas quais mulheres se destacam como público leitor está na forma como se relacionam com a narrativa.
A leitura, muitas vezes, funciona como espelho, mas também como possibilidade de deslocamento. Ao se reconhecer ou se estranhar em uma história, a leitora constrói interpretações que atravessam sua própria experiência.
Nos clubes de leitura, esse processo ganha ainda mais potência. Quando diferentes mulheres compartilham suas percepções, o texto se multiplica. Uma mesma obra pode revelar tantas camadas completamente diferentes dependendo de quem lê.
Assim, o ato de ler deixa de ser apenas individual e passa a ser também um exercício coletivo de construção de sentido.
Clubes de leitura e a valorização da escrita feminina
Outro ponto importante é que muitos clubes de leitura têm contribuído diretamente para a valorização de escritoras.
Ao escolherem leituras, muitas mediadoras e participantes priorizam obras escritas por mulheres, ampliando a circulação dessas vozes. Isso impacta não só o repertório das leitoras, mas também o próprio mercado editorial.
Além disso, clubes ajudam a resgatar autoras esquecidas, revisitar clássicos sob novas perspectivas e dar visibilidade a escritoras contemporâneas.
Dessa forma, a leitura coletiva se transforma também em prática crítica, uma forma de questionar o cânone e ampliar o espaço para narrativas diversas.
O papel dos clubes na formação de leitoras críticas
Participar de um clube de leitura muda totalmente a nossa forma de ler. E é a coisa mais linda de perceber isso. Com o tempo, leitoras passam a observar estrutura narrativa, linguagem, contexto histórico e escolhas estéticas com mais atenção.
A leitura se torna mais ativa, mais consciente. Além disso, o contato com diferentes interpretações desenvolve o pensamento crítico. Nem sempre há consenso e é justamente isso que enriquece o processo.
Os clubes, portanto, não apenas incentivam o hábito da leitura, mas também contribuem para a formação de leitoras mais críticas, sensíveis e abertas ao diálogo.

Clubes de leitura e disputa por legitimidade literária
Fica evidente que clubes de leitura não surgem apenas como uma tendência, mas como consequência direta de um movimento maior: mulheres sempre estiveram no centro da experiência leitora, mesmo quando foram mantidas à margem da autoria e da crítica.
Mas não me surpreende, nesse cenário que, ainda hoje, certas falas revelem como o campo literário continua atravessado por hierarquias de valor.
Recentemente, o escritor Dudu (o tal do Édouard Louis), que me dê a licença de tratá-lo da mesma diminuta forma que ele nos tratou, afirmou que Elena Ferrante escreve romance para adolescentes e que seus livros seriam realmente ruins.
A declaração gerou debate e não apenas por discordância estética. Porque a questão aqui não é gosto.
O que está por trás da desvalorização do que é feminino?
Mesmo que fosse verdade — qual é exatamente o problema de escrever para adolescentes? E mais: qual é o problema de escrever para meninas?
Historicamente, tudo o que se associa ao universo feminino, especialmente o que envolve emoções, relações, formação e subjetividade, tende a ser desvalorizado dentro da crítica literária.
Não por falta de complexidade, mas por um sistema que ainda mede valor a partir de parâmetros que privilegiam determinadas experiências.
Nesse sentido, reduzir a obra de Ferrante não é apenas uma crítica estética. É também um gesto que ecoa um padrão recorrente: o de diminuir narrativas centradas em mulheres, como se fossem menos universais, menos sofisticadas ou menos relevantes.
Confesso, nunca li nada de Dudu. Mas vejo que se uma pessoa que se nomeia escritor que não consegue falar de outra coisa a não ser os 40 km de raio do próprio umbigo deveria respeitar mais a produção escrita de mulheres.
E, além disso, são justamente essas narrativas que mobilizam milhões de leitoras ao redor do mundo, que se reconhecem, se deslocam e constroem sentido a partir delas.
Talvez seja por isso que os clubes de leitura tenham se tornado espaços tão potentes. Neles, a literatura não precisa se justificar a partir de um ideal de legitimidade externa.
Ela se sustenta na troca, na experiência e na escuta. E, nesse processo, mulheres não apenas leem mais, nós interpretamos, questionamos, selecionamos e redefinimos o que importa.
Assim, mais do que acompanhar tendências, esses espaços ajudam a reconfigurar o próprio campo literário. Porque, no fim das contas, não é apenas sobre quem escreve. É sobre quem lê, quem legitima e quem decide o que merece ser levado a sério, viu Dudu?
Ps.: para resumo da ópera….
Deixo aqui o meu muito obrigada a todas as mulheres (também aos poucos amigos que estão ali com a gente) que me acompanham nos clubes de leitura por aí. E fica a dica para quem ainda não achou o seu: