Por onde começar a ler Elena Ferrante sem cair direto na Tetralogia Napolitana?

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Eu sei, eu sei que este post pode parecer suspeito, mas ele serve para orientar os novos leitores de Elena Ferrante. Porque se você já se perguntou por onde começar a ler os livros dela, não está sozinha.

Considerada uma das autoras mais importantes da literatura contemporânea, a Febre Ferrante conquistou leitores no mundo inteiro com sua escrita intensa, íntima e profundamente humana.

Mas ainda assim, a famosa Tetralogia Napolitana costuma intimidar quem está dando os primeiros passos nas obras da escritora italiana. Mas como eu já li todos dela, resolvi fazer este conteúdo para quem deseja devorar os livros pelas beiradas.

Ainda mais agora que as declarações do escritor Édouard Louis reacenderam debates sobre o valor literário de Ferrante. Especialmente no que diz respeito à forma como sua escrita é percebida dentro do cânone contemporâneo.

Por isso, neste artigo, você vai encontrar um guia prático sobre por onde começar a ler Elena Ferrante, antes de mergulhar na aclamada Tetralogia Napolitana.

Por que não começar pela Tetralogia Napolitana?

A Série Napolitana, que começa com A amiga genial, é, sem dúvida, a obra mais linda de Elena Ferrante. Mas isso não significa que seja o melhor ponto de partida.

O primeiro ponto é o volume: são quatro livros extensos, densos e emocionalmente exigentes. A narrativa acompanha décadas da vida de duas personagens, mergulhando em temas como amizade, violência, mobilidade social e construção da identidade feminina.

Apesar de ser uma grande fofoca, não é uma leitura leve. E, para muitas leitoras iniciantes, pode se tornar mais cansativa do que envolvente.

Além disso, a escrita de Ferrante, marcada por uma intensidade psicológica quase desconfortável, exige certa familiaridade com seu estilo. Entrar direto na Série pode fazer com que essa experiência pareça excessiva. Quando, na verdade, ela é justamente o que torna a autora tão potente.

Por isso, começar por outras obras mais curtas pode ser uma forma mais inteligente de criar intimidade com a linguagem de Ferrante. Antes mesmo de encarar um projeto literário tão amplo.

Melhores livros de Elena Ferrante para começar

Porém, se a meta é entrar no universo de Elena Ferrante com mais segurança, alguns títulos funcionam como portas de entrada ideais. E eu digo isso, tanto pela extensão quanto pela forma como condensam os temas centrais da autora.

A filha perdida

Se o teu foco é a Série Napolitana e não toda a obra, talvez o melhor ponto de partida para entrar na obra de Elena Ferrante seja: A filha perdida. Porque este livro condensa, em uma narrativa breve, muitos dos elementos que definem sua escrita.

Nele, acompanhamos Leda, uma professora universitária que, durante férias solitárias, se vê atravessada por lembranças de sua experiência como mãe.

Mas o que emerge não é uma memória afetuosa e reconciliada, e sim uma reflexão incômoda sobre a maternidade não idealizada, marcada por ambivalência, culpa e desejo de fuga.

Até que um dia, ela está ali curtindo suas férias e vê uma mãe, uma filha e uma boneca. E Leda decide roubar esta boneca. Esta atitude, que nos parece no primeiro instante meio insana, soa como um experimento das reflexões sobre a maternidade que a personagem faz.

Elena Ferrante brilha demais aqui. Ela constrói aqui uma investigação profunda da interioridade feminina, expondo conflitos que raramente ganham espaço na literatura sem serem suavizados. Leda não é uma personagem agradável.

Leda encarna a tensão entre desejo individual e papéis sociais, revelando o quanto a maternidade pode ser atravessada por sentimentos contraditórios, como ressentimento, exaustão e até uma forma de rejeição.

Um elemento simbólico fundamental do romance é o brincar de boneca, que atravessa a narrativa como representação das relações entre mães e filhas, mas também como objetos carregados de projeção, controle e identidade fragmentada.

Agora um babado. A própria Ferrante já indicou que a Tetralogia Napolitana nasce, em alguma medida, da sensação de que a simbologia dessa boneca roubada ainda não havia sido completamente explorada.

Assim, A filha perdida, ainda que tenha uma estória completamente independente, funciona como uma chave de leitura para compreender os desdobramentos mais amplos da obra da autora.

Cena da terceira temporada de My brilliant friend, adaptação de História de quem vai e de quem fica, de Elena Ferrante.

Dias de abandono

Neste romance acompanhamos Olga, uma mulher subitamente deixada pelo marido. E o que poderia ser apenas uma narrativa sobre separação se transforma em um mergulho radical na desintegração psíquica.

Ferrante constrói uma escrita marcada por urgência, em que a linguagem acompanha o colapso interno da personagem, borrando os limites entre pensamento, corpo e realidade.

Esta narrativa vai didaticamente nos ajudar a entender exatamente o processo de desmarginação (smarginatura) sofrido por Lila e a decadência aterrorizante de Melina.

A narrativa se fecha em um espaço quase claustrofóbico, intensificando a sensação de isolamento, enquanto Olga enfrenta não apenas o abandono, mas também a quebra de sua própria identidade construída em torno do casamento e da maternidade.

Aqui, a autora expõe sem filtros a violência emocional do abandono e os efeitos de uma estrutura social que condiciona mulheres a papéis que, uma vez rompidos, deixam um vazio difícil de reorganizar.

O que torna o livro tão impactante é sua recusa em suavizar esse processo. Há uma insistência na feiura dos sentimentos, naquilo que é socialmente inaceitável: raiva, humilhação, desejo de vingança, perda de controle. Não há catarse fácil, apenas a experiência crua de atravessar o colapso.

Um amor incômodo

Talvez o meu favorito para começar. Ele é o romance de estreia de Elena Ferrante. Um amor incômodo já apresenta, de forma densa e perturbadora, os eixos que sustentam sua obra.

Nessa narrativa acompanhamos Delia, que retorna a Nápoles após a morte da mãe e passa a investigar não apenas as circunstâncias desse desaparecimento, mas também as zonas obscuras de sua própria memória.

O que se constrói não é uma investigação linear, mas um percurso fragmentado em que memória, corpo e identidade se entrelaçam de maneira instável.

Ferrante trabalha aqui com uma lógica de desconstrução da figura materna, afastando-se de qualquer idealização e expondo camadas de vergonha, desejo e violência simbólica que atravessam essa relação.

A cidade de Nápoles é o palco dessa estória, mas também funciona como extensão dessas tensões, marcada por uma atmosfera de opressão social e códigos implícitos que moldam o comportamento feminino.

O romance se destaca pela forma como articula a instabilidade narrativa. Com lembranças imprecisas, associações fragmentadas e deslocamentos temporais, um verdairo reflexo direto da subjetividade da protagonista.

Mais do que contar uma história, Ferrante investiga os limites entre o que é lembrado, o que é reprimido e o que jamais se deixa compreender por completo.

E depois? Entrando na Tetralogia

Depois de ler um ou dois livros de Elena Ferrante, entrar na Tetralogia Napolitana deixa de ser intimidador e passa a ser um mergulho mais consciente. Sobretudo porque você já reconhece os mecanismos emocionais que estruturam sua escrita.

A série começa com A amiga genial, que apresenta a amizade intensa e ambígua entre Lila e Lenù. Duas meninas que crescem em um bairro pobre de Nápoles nos anos 1950.

A partir daí, acompanhamos suas trajetórias ao longo de décadas, atravessando temas como ascensão social, violência, educação, casamento, maternidade e identidade feminina.

Nos volumes seguintes, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida (de partir o coração), essa relação se torna ainda mais complexa.

Porque ela marcada por competição, admiração, ressentimento e uma espécie de dependência emocional que nunca se resolve completamente.

Ao mesmo tempo, Ferrante constrói um retrato histórico-social amplo da Itália, evidenciando como as estruturas de classe e gênero moldam as escolhas e os limites dessas mulheres.

Por isso, chegar à Tetralogia já familiarizada com a escrita de Ferrante transforma a leitura: você não apenas acompanha a história, mas entende a lógica interna que a sustenta.

Cena da segunda temporada de My brilliant friend, adaptação de História do novo sobrenome, de Elena Ferrante.

As críticas de Édouard Louis fazem sentido?

Recentemente, o escritor Édouard Louis fez declarações críticas à obra de Elena Ferrante, questionando, entre outras coisas, o lugar que sua escrita ocupa dentro da literatura contemporânea.

Embora nem sempre formuladas como ataques diretos, suas falas ecoam uma desconfiança recorrente: a de que a escrita de Ferrante seria excessivamente emocional ou centrada demais na esfera privada: especialmente nas experiências femininas.

Mas essa crítica revela mais sobre o olhar de quem lê do que sobre a obra em si. Porque além de retratar uma Itália que não vemos nos guias turísticos. A força de Ferrante está justamente na forma como transforma o íntimo em político.

Seus livros não falam apenas de relações pessoais, eles expõem estruturas:

  • desigualdade de gênero
  • violência simbólica e física
  • limitações impostas às mulheres ao longo da vida

Ao narrar experiências consideradas domésticas, Ferrante desloca o eixo do que tradicionalmente foi entendido como literatura universal. E é justamente esse deslocamento que, muitas vezes, gera resistência.

Além disso, há um ponto importante: a intensidade emocional em Ferrante não é excesso, é método. Suas personagens não são moderadas porque suas realidades também não são. Elas são feita de carne e osso.

Nesse sentido, a crítica de Édouard Louis pode ser lida como parte de um debate maior sobre o que ainda é considerado legítimo dentro do campo literário.

O que esperar da escrita de Elena Ferrante?

Antes de começar a ler Elena Ferrante, é importante ajustar não apenas as expectativas, mas também o tipo de leitura que você está disposta a fazer. Sua escrita não se organiza a partir de uma lógica de conforto narrativo, mas sim de exposição emocional.

Isso significa que suas histórias não caminham necessariamente em direção a uma resolução clara ou apaziguadora. Ao contrário, elas insistem na permanência do conflito, naquilo que não se resolve e que continua reverberando nas personagens.

Um dos aspectos mais marcantes é a construção de uma interioridade feminina radical, em que pensamentos, impulsos e contradições são levados até as últimas consequências.

As personagens de Ferrante não são feitas para serem admiradas, mas para serem compreendidas em sua complexidade moral. O que inclui sentimentos socialmente desconfortáveis como inveja, ressentimento, raiva e até uma certa recusa dos papéis tradicionalmente associados ao feminino, como a maternidade idealizada.

Além disso, há uma tensão constante entre o que é íntimo e o que é estrutural. Ferrante transforma experiências aparentemente privadas em reflexo de dinâmicas maiores, como opressões de gênero, violência simbólica e limitações impostas por classe social.

Outro ponto fundamental é a recusa da linearidade emocional. As personagens avançam e retrocedem, contradizem a si mesmas, tomam decisões incoerentes e é justamente aí que reside a força da narrativa. (Prometa-me não soltar a mão de Lenú nem na página 471 e nem na 413 do segundo e terceiro livro da série? Porque quem nunca?)

Ferrante não busca coerência, mas verdade emocional. Por isso, sua leitura pode gerar incômodo, mas também reconhecimento: ela nomeia aquilo que muitas vezes permanece difuso, mal elaborado ou silenciado.

Ordem cronológica dos livros de Elena Ferrante

Se você quer acompanhar a evolução da escrita de Elena Ferrante, esta é a ordem de publicação de suas obras:

  • Um amor incômodo (1992)
  • Dias de abandono (2002)
  • Frantumaglia (2003; edição ampliada em 2016)
  • A filha perdida (2006)
  • A amiga genial (2011)
  • História do novo sobrenome (2012)
  • História de quem foge e de quem fica (2013)
  • História da menina perdida (2014)
  • A invenção ocasional (2019)
  • A vida mentirosa dos adultos (2019)

Assim você consegue visualizar com clareza o percurso da autora — do início mais íntimo e fragmentado até a consolidação com a Tetralogia Napolitana e os romances mais recentes.

Cena da primeira temporada de My brilliant friend, adaptação de A amiga genial de Elena Ferrante.

Começar devagar é a melhor forma de mergulhar fundo

Ler Elena Ferrante é atravessar uma experiência emocional densa, por vezes perturbadora, mas extremamente reveladora. E antes que eu me esqueça: Nino Sarratore è un omm’ e merd.

Comece por livros como A filha perdida ou Um amor incômodo. Te permita criar uma espécie de preparação sensível para aquilo que virá depois. Assim, quando você finalmente chegar à Tetralogia Napolitana, estará mais preparada para apreciar a paisagem.

No fim das contas, não se trata de evitar a obra mais famosa, mas de chegar até ela no tempo certo.

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