Imagine acordar depois de uma noite que você não consegue lembrar direito e descobrir que sua melhor amiga está morta. Agora imagine que todo mundo na cidade acredita que você é a responsável pelo assassinato.
É a partir dessa situação que Amy Tintera constrói No rastro da mentira, um thriller que mistura investigação, true crime, humor ácido e uma protagonista que está tão interessada em descobrir a verdade quanto o próprio leitor.
Publicado originalmente como Listen for the Lie, o livro chegou ao Brasil pela TAG Livros, na caixinha TAG Inéditos de fevereiro de 2026, e depois ganhou edição da Arqueiro.
Mas, apesar de partir de um assassinato, o romance está menos interessado em simplesmente descobrir quem matou Savvy Harper e mais em discutir como uma história se transforma em verdade quando é repetida muitas vezes.
Sobre o que é No rastro da mentira?
Cinco anos antes dos acontecimentos do livro, Lucy Chase deixou sua cidade natal no Texas depois de uma tragédia: sua melhor amiga, Savvy Harper, morreu assassinada. O problema é que Lucy estava presente naquela noite.
Na ocasião, encontraram Lucy coberta pelo sangue de Savvy e, para piorar, ela não consegue se lembrar exatamente do que aconteceu. A polícia nunca a acusou formalmente pelo crime, mas isso não impediu que a cidade tirasse suas próprias conclusões.
Para os moradores de Plumpton, Lucy matou Savvy. E agora, cinco anos depois, um podcast de true crime decide reabrir o caso. Seu apresentador, Ben Owens, começa a entrevistar pessoas que conheciam Savvy e Lucy e a reconstruir os acontecimentos daquela noite.
É quando Lucy precisa voltar para a cidade que abandonou e encarar uma pergunta bastante incômoda: e se ela realmente for a assassina?
Uma protagonista que não tenta parecer simpática
Lucy é um dos grandes diferenciais de No rastro da mentira. Ela é sarcástica, irritada, impaciente e está longe de ser aquela protagonista de thriller que passa o tempo inteiro tentando convencer o leitor de que é uma pessoa absolutamente adorável.
E isso é importante porque as pessoas já julgaram Lucy por ela não corresponder à imagem que esperavam de uma mulher. Já Savvy tinha fama de garota perfeita. Bonita, carismática e querida por praticamente todo mundo. Lucy, por outro lado, carregava a fama de ser difícil.
Quando Savvy morre, essas duas imagens ganham novos significados. A vítima perfeita e a suspeita imperfeita. E é justamente aí que Amy Tintera começa a mexer com a ideia de reputação.
Quem conta a verdade?
Uma das coisas mais interessantes do livro é que a investigação não acontece apenas por meio de interrogatórios e pistas.
Parte da história chega ao leitor pelas gravações do podcast de Ben Owens (por isso a capa). Acompanhamos as entrevistas e, ao mesmo tempo, conhecemos os pensamentos de Lucy sobre tudo o que ele diz.
Isso cria uma situação bastante divertida e desconfortável: sabemos o que as pessoas dizem sobre Lucy, mas também sabemos o que ela pensa enquanto escuta tudo. E as duas versões nem sempre combinam.

O true crime como espetáculo
O podcast também permite que Amy Tintera explore nossa relação com histórias de crimes reais. Para quem está ouvindo, o assassinato de Savvy é um mistério fascinante. Há suspeitos, segredos, reviravoltas e uma protagonista que talvez seja culpada.
Para Lucy, entretanto, aquilo não é entretenimento. É a própria vida. O romance brinca com essa diferença entre a curiosidade de quem acompanha um caso de fora e a experiência de quem precisa conviver com as consequências dele.
Quanto mais pessoas querem saber a verdade sobre Savvy, mais Lucy precisa reviver uma história que passou cinco anos tentando esquecer.
E se você não puder confiar na própria memória?
O fato de Lucy não se lembrar completamente da noite do assassinato é um dos principais motores da narrativa. Ela não tem certeza do que aconteceu. Por consequência, o leitor também não.
Isso faz com que cada nova informação possa alterar nossa interpretação dos acontecimentos anteriores. Mas existe outra questão ainda mais interessante: até que ponto podemos confiar na memória de alguém quando essa pessoa passou anos ouvindo uma versão diferente dos fatos?
Lucy ouviu repetidamente que matou Savvy. E também que tinha ciúmes dela. Ouviu que era instável e que tinha motivos. Depois de tanto tempo, começa a ser difícil separar aquilo que realmente lembra daquilo que outras pessoas disseram que aconteceu.
A amizade entre Lucy e Savvy está no centro do mistério
Conforme a investigação avança, a imagem de Savvy também começa a mudar. A garota perfeita talvez não fosse tão perfeita assim. E Lucy, que durante anos foi apresentada como a amiga invejosa e problemática, talvez não seja exatamente a pessoa que a cidade decidiu enxergar.
Essa reconstrução da amizade é importante porque transforma o mistério. Não estamos apenas tentando descobrir quem matou Savvy. Também estamos tentando descobrir quem Savvy era de verdade.
Aos poucos, o romance mostra como uma pessoa pode ser transformada em personagem depois de morrer. Familiares, amigos, vizinhos e investigadores têm suas próprias versões sobre quem ela era, e todas essas versões acabam disputando espaço.
No rastro da mentira mistura suspense e humor
Apesar de lidar com assassinato, violência e relações bastante complicadas, No rastro da mentira não é um thriller pesado o tempo inteiro. O humor aparece principalmente através de Lucy.
Seu sarcasmo e sua maneira pouco diplomática de reagir às situações quebram momentos de tensão e dão ao livro uma personalidade bastante própria.
Essa mistura também evita que a história se torne excessivamente sombria. Em determinados momentos, estamos diante de uma investigação sobre um assassinato.
Poucas páginas depois, Lucy pode estar fazendo algum comentário completamente inconveniente sobre a situação. É justamente esse contraste que torna a leitura mais dinâmica.
Quem é Amy Tintera?
Amy Tintera nasceu e cresceu no Texas e estudou jornalismo antes de fazer mestrado em roteiro. Antes de se dedicar integralmente à literatura, trabalhou em Hollywood e escreveu livros para o público jovem adulto.
No rastro da mentira marcou sua estreia na literatura adulta e rapidamente ganhou destaque internacional.
O livro entrou para a lista de best-sellers do New York Times, foi escolhido pelo Good Morning America Book Club e recebeu indicações e prêmios importantes na literatura de mistério.
A versão em audiobook também foi premiada: a gravação de Listen for the Lie, narrada por January LaVoy e Will Damron, venceu o Audie Award de 2025 na categoria Mystery.

As inspirações de No rastro da mentira
A história de No rastro da mentira também nasceu de referências reais e ficcionais. Amy Tintera revelou que o assassinato de Meredith Kercher e a repercussão em torno de Amanda Knox serviram como uma das inspirações para o romance.
Tintera se interessou especialmente pela maneira como a mídia construiu uma narrativa sobre a relação entre Amanda e Meredith, explorando a ideia de que as duas mulheres poderiam se odiar secretamente.
Para a autora, o caso mostrava como a imprensa pode transformar uma amizade entre mulheres em uma história de rivalidade e usar essa narrativa para alimentar suspeitas.
Essa influência aparece na trajetória de Lucy Chase. Assim como Amanda Knox, Lucy se torna alvo de uma narrativa pública que ultrapassa as evidências do caso. A cidade cria sua própria versão dos acontecimentos e passa a enxergar Lucy a partir dela.
Mas Amanda Knox não foi a única referência para a construção do romance. Tintera também citou Fleabag, série criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, como uma influência importante para a personalidade de Lucy e para o humor da história.
A autora buscou na série essa combinação entre situações desconfortáveis, humor ácido e uma protagonista que conversa diretamente com o leitor por meio de seus pensamentos e comentários.
As duas referências ajudam a entender o tom particular de No rastro da mentira. De um lado, o caso Amanda Knox trouxe questões sobre julgamento público, mídia e a maneira como histórias sobre mulheres ganham novas versões quando passam pelo olhar de outras pessoas.
De outro, Fleabag ajudou Tintera a construir uma protagonista irreverente, sarcástica e pouco interessada em corresponder às expectativas alheias.
No rastro da mentira chegou ao Brasil pela TAG Livros
Para os leitores brasileiros, No rastro da mentira chegou pela TAG Livros na caixinha de fevereiro de 2026, como uma das escolhas da curadoria TAG Inéditos. A publicação brasileira também ganhou edição da Arqueiro, ampliando o acesso ao livro para quem não participa do clube.
A escolha combina bastante com a proposta da TAG Inéditos: apresentar aos leitores brasileiros romances contemporâneos que estão ganhando espaço fora do país.
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Afinal, vale a pena ler No rastro da mentira?
No rastro da mentira é uma boa escolha para quem gosta de thrillers que não dependem apenas de uma sequência de pistas para prender o leitor. O assassinato é o ponto de partida, mas a história vai ficando mais interessante conforme começamos a questionar as versões que cada personagem apresenta.
Quem está mentindo? E quem está escondendo alguma coisa? Ou quem simplesmente se lembra dos acontecimentos de uma maneira diferente? E, principalmente, quem tem o poder de decidir qual versão da história será considerada verdadeira?
Amy Tintera transforma essas perguntas em um thriller ágil, divertido e cheio de reviravoltas, mas também aproveita a investigação para falar sobre reputação, misoginia, memória e a nossa obsessão por transformar tragédias em entretenimento.
No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quem matou Savvy Harper. É descobrir quantas vezes uma mentira precisa ser repetida até começar a parecer verdade. Inclusive para a pessoa que está sendo acusada dela.