As mulheres-leão de Teerã: conheça as amigas geniais iranianas

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As mulheres-leão de Teerã, de Marjan Kamali, é um romance sobre amizade, escolhas, culpa e as transformações vividas pelas mulheres no Irã ao longo de décadas.

A história acompanha Ellie e Homa, duas amigas que se conhecem ainda crianças e seguem caminhos muito diferentes em meio às mudanças políticas e sociais do país.

Publicado originalmente em 2024, o livro chegou ao Brasil pela TAG Livros, como título da caixinha TAG Inéditos de abril de 2026.

A edição brasileira apresenta ao público uma autora de origem iraniana que transforma acontecimentos históricos em uma narrativa profundamente pessoal sobre duas mulheres e os laços que permanecem mesmo depois de uma ruptura.

A obra também ganhou uma comparação que ajuda a entender sua proposta: As mulheres-leão de Teerã foi chamado de “A amiga genial do Irã”, em referência ao romance de Elena Ferrante que acompanha a amizade entre Elena e Lila ao longo de suas vidas.

Mas, embora os dois livros compartilhem uma amizade feminina como eixo narrativo, Marjan Kamali constrói uma história própria, atravessada pela história recente do Irã.

Sobre o que é As mulheres-leão de Teerã?

A história começa em Teerã, nos anos 1950, quando Ellie e Homa ainda são meninas. Depois da morte do pai, Ellie deixa uma vida confortável e se muda com a mãe para uma região mais modesta da cidade.

É nesse novo bairro que ela conhece Homa, uma menina inteligente, determinada e apaixonada por justiça. As duas desenvolvem uma amizade intensa, apesar das diferenças entre suas famílias e condições financeiras.

Enquanto Ellie sonha com uma vida tranquila, casamento e filhos, Homa deseja estudar, trabalhar e lutar pelos direitos das mulheres. Desde cedo, portanto, as amigas enxergam o futuro de maneiras bastante diferentes.

A amizade é interrompida quando Ellie volta para um ambiente social mais privilegiado. Anos depois, as duas se reencontram, mas já não são as mesmas meninas.

Homa se envolve cada vez mais com a política, enquanto Ellie tenta manter distância das transformações que acontecem ao seu redor.

É nesse momento que a amizade entre elas começa a se misturar com inveja, diferenças de classe e escolhas que terão consequências para o resto de suas vidas.

Uma história de amizade atravessada pela política

Marjan Kamali ambienta a história em um período de profundas transformações no Irã. O romance atravessa acontecimentos como o golpe de 1953, as reformas do período do xá, a Revolução Islâmica de 1979 e a Guerra Irã-Iraque.

A autora, porém, não transforma o livro em uma aula de História. Os acontecimentos políticos aparecem principalmente pelo impacto que provocam na vida das personagens.

Para Homa, a política deixa de ser uma questão distante e passa a determinar sua liberdade, seu futuro e sua própria segurança. Ellie, por outro lado, acredita durante muito tempo que pode permanecer afastada da política.

Essa diferença entre as duas é fundamental para compreender o romance: enquanto Homa entende que as decisões políticas inevitavelmente atingem sua vida, Ellie acredita que pode preservar sua vida pessoal mantendo-se à margem.

A narrativa mostra, pouco a pouco, que essa neutralidade também está relacionada ao privilégio.

Mulheres em transformação

O livro acompanha mudanças importantes na vida das mulheres iranianas. Durante o governo do xá, ocorreram reformas que ampliaram direitos femininos, incluindo o direito ao voto e alterações na legislação familiar. Depois da Revolução de 1979, parte dessas conquistas foi revertida.

Homa acompanha essas transformações de maneira muito próxima. Para ela, discutir os direitos das mulheres não é uma questão abstrata: significa decidir que tipo de vida uma mulher pode construir para si mesma.

É justamente por isso que o contraste entre as duas protagonistas funciona tão bem. Ellie e Homa não representam simplesmente duas mulheres “certas” ou “erradas”. Elas representam possibilidades diferentes de enfrentar um mundo em transformação.

Por que “mulheres-leão”?

O título do romance vem da expressão persa shir zan, que pode ser traduzida como “mulher-leão”. A expressão descreve uma mulher forte, corajosa e determinada, alguém que não aceita facilmente as limitações impostas a ela.

A ideia tem uma relação pessoal com Marjan Kamali. A autora cresceu cercada por mulheres que considerava verdadeiras shir zan, incluindo sua avó, que trabalhou fora e criou quatro filhos em uma época em que isso ainda era pouco comum para mulheres iranianas de sua geração.

No romance, Homa parece ser inicialmente a representação mais evidente dessa mulher-leão. Ela quer estudar, construir uma carreira e lutar por mudanças sociais. Não aceita simplesmente o lugar que esperam que ela ocupe.

Mas o livro amplia o significado da expressão. Ser uma mulher-leão não significa necessariamente participar de uma revolução ou assumir uma posição política.

A coragem também pode aparecer em escolhas silenciosas, na capacidade de sobreviver, recomeçar, proteger os filhos e enfrentar as consequências das próprias decisões.

A culpa, a inveja e a traição

Um dos acontecimentos mais importantes do romance transforma completamente a relação entre Ellie e Homa.

Ellie, movida por insegurança e pelo desejo de impressionar pessoas de seu novo círculo social, acaba fornecendo informações que contribuem para a prisão de Homa.

Ela não pretendia destruir a amiga, mas suas escolhas têm consequências muito maiores do que poderia imaginar. A partir daí, a amizade passa a ser marcada pela culpa.

Esse é um dos aspectos mais interessantes do livro porque Marjan Kamali não trabalha a traição de maneira simples. Ellie não é apresentada como uma vilã que planeja conscientemente prejudicar Homa. Ao mesmo tempo, suas boas intenções não apagam as consequências de seus atos.

O romance passa então a questionar até onde vai nossa responsabilidade pelas consequências de escolhas que fazemos sem compreender completamente seus efeitos.

Maternidade, memória e relações entre mulheres

A maternidade também ocupa um espaço importante na narrativa. Ellie deseja construir uma família, enquanto Homa se torna mãe em circunstâncias traumáticas.

O livro também explora as relações entre mães e filhas e a dificuldade de compreender nossas mães para além do papel que elas desempenham em nossas próprias vidas.

Antes de serem mães, elas foram meninas, jovens, mulheres com desejos, medos e sonhos que muitas vezes desconhecemos.

Essa perspectiva ajuda a ampliar o romance para além da amizade entre Ellie e Homa. As mulheres-leão de Teerã também é uma história sobre diferentes gerações de mulheres e sobre aquilo que elas conseguem transmitir umas às outras, mesmo quando não percebem.

Marjan Kamali, escritora de As mulheres-leão de Teerã, livro da caixinha de abril da TAG Inéditos.

Marjan Kamali: uma autora entre culturas

Marjan Kamali nasceu na Turquia, filha de pais iranianos, e passou parte da infância em diferentes países antes de se estabelecer nos Estados Unidos. Sua relação com o Irã é, portanto, atravessada pela experiência da diáspora.

Essa vivência aparece em sua literatura, especialmente na maneira como ela trabalha memória, pertencimento e deslocamento.

Antes de escrever As mulheres-leão de Teerã, Kamali publicou The Stationery Shop, romance que também aborda amor, memória e os acontecimentos políticos do Irã. Em seu novo livro, ela novamente transforma a história do país em pano de fundo para uma narrativa íntima.

A autora também se baseou em histórias familiares para reconstruir detalhes da vida cotidiana no Irã. Sua mãe, por exemplo, ajudou a recuperar lembranças sobre escolas, costumes e experiências de sua geração.

As mulheres-leão de Teerã chegou ao Brasil pela TAG Livros

No Brasil, o romance ganhou uma edição especial pela TAG Livros e chegou aos assinantes na caixinha TAG Inéditos de abril de 2026.

A publicação trouxe para o público brasileiro uma obra que já havia recebido bastante atenção internacional e que combina ficção histórica, amizade e uma história familiar com acontecimentos importantes da história iraniana.

Para quem gosta de descobrir livros que ainda não receberam tanta atenção por aqui, a edição da TAG também representa uma oportunidade de conhecer uma autora contemporânea de origem iraniana cuja obra transita entre diferentes culturas.

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Afinal, vale a pena ler As mulheres-leão de Teerã?

As mulheres-leão de Teerã é, acima de tudo, uma história sobre duas mulheres que começam a vida juntas e acabam seguindo caminhos muito diferentes.

A comparação com A amiga genial faz sentido quando pensamos na amizade feminina como centro da narrativa, mas Marjan Kamali leva essa relação para outro contexto histórico e cultural. Aqui, as transformações do Irã não são apenas cenário: elas interferem diretamente nas escolhas, nos relacionamentos e no futuro das personagens.

O resultado é um romance sobre amizade, inveja, culpa, maternidade, classe social e memória, mas também sobre as diferentes maneiras que uma mulher pode encontrar para ser uma “mulher-leão”.

No fim, talvez essa seja a pergunta mais interessante deixada pelo livro: o que significa ser corajosa quando as circunstâncias não são as mesmas para todas as mulheres?

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