Mães e filhas: 05 livros sobre maternidade que você precisa ler

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Adaptação de Um amor incômodo, romance de estreia de Elena Ferrante.

Eu sei. Mergulhar em livros sobre maternidade é, muitas vezes, um exercício de coragem. Especialmente para quem, como eu, decidiu que não quer ter filhos.

Pode parecer contraditório buscar obras sobre um universo que não pretendo habitar. Mas acho que chega para todas nós o momento de tentar entender, sob um outro ponto de vista, as relações com as nossas próprias mães.

Confia em mim: a literatura pode ajudar e muito. Pois, é por meio das páginas que conseguimos despir a figura materna daquela aura de santidade ou de cobrança, para finalmente enxergar a mulher que existe ali.

Além disso, o espelho da ficção pode nos devolver imagens que nem sempre estamos prontas(os) para encarar. Como os desejos sufocados, a exaustão silenciosa e as escolhas que elas fizeram antes mesmo de existirmos.

Para este post, fiz uma seleção de obras (não tão fáceis) que me ajudaram nesse caminho de entender a minha Maria como uma vítima de sua geração e fazer com que a nossa relação tivesse um outro sentido.

Por isso, se você busca entender esse vínculo sem as lentes cor-de-rosa, estas obras são o ponto de partida para um encontro honesto com a sua própria ancestralidade.

O que você encontra nessas leituras?

Quando procurei essas obras pela primeira vez, minha intenção era muito clara: eu não buscava uma fórmula mágica para consertar minha relação com a minha mãe.

Pois o que eu queria era o direito de entendê-la sob um outro ponto de vista. Assim, eu precisava separar a mãe da mulher e, através da literatura, eu consegui.

Foi a oportunidade perfeita para observar os fios invisíveis que nos ligam a elas, entendendo que esses vínculos podem ser feitos tanto de afeto quanto de ressentimento e renúncia. No fim, essas leituras serviram para dar nome ao que sempre foi silêncio entre nós.

O que esperar dessas obras?

Ao escolher um título dessa categoria, você geralmente vai encontrar três abordagens principais que ajudam a clarear a mente:

  • A desconstrução da mãe perfeita: sabe aquela pressão de dar conta de tudo enquanto o carro quebra e o boleto vence? Esses livros mostram que a perfeição é um mito que só serve para nos deixá-las exaustas.
  • O resgate da própria voz: muitas narrativas focam no processo de não se perder de si mesma após a chegada das crianças. É um lembrete de que você ainda é uma mulher com desejos e projetos próprios.
  • A ponte entre gerações: são histórias que nos fazem olhar para as nossas próprias mães com mais doçura e menos julgamento, entendendo que elas também estavam apenas tentando sobreviver ao caos.

5 livros sobre maternidade e o vínculo entre mães e filhas

Se você chegou até aqui com o mesmo objetivo que eu: o de entender quem são essas mulheres para além do papel de progenitoras, estas cinco obras são fundamentais.

Elas entregam a crueza de quem precisou lidar com contextos de pressão, silêncio e o peso de escolhas muitas vezes impostas.

São livros que tratam a maternidade sem filtros, ideais para quem busca compreender as nuances de ser filha em um mundo que raramente permite que as mães sejam humanas.

1. Um amor incômodo, de Elena Ferrante

Neste romance de estreia de Ferrante, acompanhamos Delia no funeral de sua mãe, Amalia. Mas o que acompanhamos não é um luto tradicional, mas uma investigação obsessiva da personagem para entender o que aconteceu com sua mãe.

Amalia é encontrada afogada à beira do mar, um dia antes do aniversário da filha. É por isso, que Delia tenta reconstruir os últimos dias da mãe. Mas no processo, acaba confrontando a própria sexualidade e os traumas que as unem.

A obra explora como a identidade da mãe se infiltra na da filha, apagando os limites entre as duas.

Filme adaptado do romance Um amor Incômodo de Elena Ferrante, um dos livros sobre maternidade.
Adaptação de Um amor incômodo, romance de estreia de Elena Ferrante.

2. A Cachorra, de Pilar Quintana

Neste romance curto e avassalador, a autora colombiana explora o desejo de maternar em meio à escassez. Damaris, uma mulher que não conseguiu ter filhos, despeja todo o seu instinto de cuidado em uma cadela.

O livro mostra como o amor e a frustração podem caminhar lado a lado. A cachorra é uma narrativa que é tão árida quanto a costa do Pacífico onde se passa.

Além disso, é uma metáfora sobre as expectativas que projetamos nos outros e a dor do abandono.

3. Gosma Rosa, de Fernanda Trías

Para quem busca uma narrativa contemporânea e perturbadora, Trías utiliza uma distopia para dissecar o cuidado em sua forma mais crua.

Em uma cidade sitiada por uma peste, a protagonista se vê presa entre três fantasmas: Max, seu ex marido, o menino Mauro, de quem ela cuida por dinheiro, e sua própria mãe, com quem mantém uma relação gélida e marcada por cobranças sobre um corpo e um passado que já não lhe pertencem.

De um lado, temos Mauro, deixado pela mãe biológica aos cuidados de uma estranha. Uma decisão que oscila entre o abandono e uma tentativa desesperada de preservação. Mauro sofre de uma condição estranha e com a qual a sua mãe parece não querer lidar.

De outro, a protagonista tenta gerenciar o vínculo exaustivo com o menino enquanto lida com as visitas e os julgamentos da própria mãe. É um livro que revela como o instinto de proteção e o ressentimento caminham juntos quando o mundo ao redor está desmoronando.

4. O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman

Um clássico fundamental para entender a saúde mental materna. Escrito no século XIX, ele narra o confinamento de uma mulher sofrendo de depressão pós-parto, sob o pretexto de um tratamento de repouso.

A obra é um grito contra o silenciamento das mães e mostra como a negação da individualidade feminina pode levar ao abismo.

É um lembrete histórico de que a liberdade intelectual é essencial para a sanidade de quem cria.

5. É sempre a hora de nossa morte amém (Mariana Salomão Carrara)

Neste romance brasileiro visceral, acompanhamos Aurora, uma mulher encontrada sem memória em uma estrada, e sua busca fragmentada para entender quem foi.

A obra foca no desamparo e na falência dos vínculos familiares, explorando como a identidade de uma mulher pode se dissipar quando os laços maternos e as memórias se rompem.

É uma leitura essencial para quem quer observar o pós-maternidade: o que sobra de uma mulher quando os filhos e o passado se tornam apenas sombras e estranhamento.

Como escolher o livro certo para o seu momento atual?

A escolha de cada um desses livros depende diretamente de qual ferida ou dúvida você pretende cutucar. Se o objetivo é entender a mulher por trás da função, cada obra entrega uma chave de leitura diferente:

  • Para dissecar a identidade oculta da sua mãe: as obras de Elena Ferrante e Charlotte Perkins Gilman focam em como as expectativas sociais e as repressões históricas anulam a mulher por trás da mãe.
  • Para entender as falhas e os abandonos: se o seu interesse está no desamparo e no que nunca foi dito, Mariana Salomão Carrara e Pilar Quintana expõem a crueza da falência dos vínculos familiares.
  • Para analisar o cuidado como fardo e sobrevivência: a ficção de Fernanda Trías é o caminho para observar como o ato de cuidar pode ser uma forma de prisão quando as outras estruturas da vida entram em colapso.

A literatura como bússola emocional

A jornada de ler sobre a relação entre mães e filhas é, no fundo, um processo de humanização. Ao fecharmos um livro que trata o ato de maternar com a crueza e a beleza que ele merece, paramos de exigir a perfeição de nós mesmas e daquelas que nos criaram.

Percebemos que, por trás de cada rotina e de cada sacrifício, existem mulheres reais, com desejos próprios e medos que não aparecem nos retratos de família.

Essas histórias não nos dão respostas prontas, mas nos oferecem algo muito mais duradouro: a compreensão. Espero, que cada página ajude você a reconstruir seus próprios vínculos com mais gentileza e menos peso.

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